Humahuaca mistura tradições e mistérios
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terça-feira, 22 de agosto de 2006
Devaldo Gilini Júnior<br> Reportagem Local 
Um local mágico, cheio de mistérios, lendas ancestrais e tradições seculares. Assim é a Quebrada de Humahuaca, um vale andino de 150 quilômetros de extensão, rodeado por altas cadeias montanhosas e esculpido durante milhões de anos pelo Rio Grande, localizado a mais de 2.000 metros de altura, na Província de Jujuy, noroeste da Argentina.
As montanhas coloridas e os povoados quebradenhos são paisagens culturais únicas no mundo. Os descendentes dos índios que ainda habitam o local conservam crenças religiosas, ritos, festas, arte, música e técnicas agrícolas que são um patrimônio vivo.
Todas essas qualidades sensibilizaram a Unesco - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, que declarou a Quebrada de Humahuaca Patrimônio Cultural da Humanidade no ano de 2003. Nada mais justo, porque a beleza das montanhas com suas cores e vales de cactos, o modo simples de viver de sua gente, seus cheiros e sabores são de deixar os cinco sentidos maravilhados.
Seus habitantes atuais são na sua maioria da etnia coya. A quebrada foi cenário de distintas culturas ancestrais de 10.000 anos de antiguidade, como os omaguacas, que lhe deram o seu nome ao local. A partir do século XVI foi o caminho de ingresso dos conquistadores espanhóis chegados do Alto Peru, se misturando com a raiz índia.
A viagem pode começar pela capital San Salvador de Jujuy, conhecida como ''La tacita de plata'' - a taça de prata do noroeste argentino, chamada assim por sua variedade de minérios. A província tem perto de 600 mil habitantes, mas mais da metade está concentrada na capital, localizada a 1.552 metros acima do nível do mar.
O prédio original que abrigava o governo provincial foi destruído por um terremoto. O atual data de 1867 e preserva características primitivas. Outro destaque é a catedral. O púlpito é um paradigma do barroco indígena, talhado por artesãos nativos sob a supervisão rigorosa dos padres franciscanos.
Seguindo da capital, o percurso da Quebrada de Humahuaca tem como eixo central a Ruta Nacional 9, uma das rodovias mais importantes da Argentina, que liga o país ao Chile e a Bolívia. A estrada serpenteia as cadeias montanhosas multicoloridas, uma visão espetacular. De um lado, picos cobertos de neve, de outro uma paisagem desértica na época da seca e totalmente verde quando chegam as chuvas.
Em certos lugares da montanha as fortes chuvas podem provocar uma enxurrada de lama: terra, pedra e água misturadas que formam uma massa viscosa de cor marrom, que por sua semelhança com a lava vulcânica é chamada ''volcán''. O trens já não circulam por ali por causa das enormes crateras formadas pelas enchentes de verão, um espetáculo indescritível, entre as cidades de León e Tumbaya.
A partir de Tumbaya, quase a 2.100 metros acima do nível do mar, a Quebrada adquire seu semblante característico. A igreja, com sua maciça torre única, abriga a paróquia desde 1873, erguida em um local onde em 1796 havia um oratório.
Na pequena cidade de Purmamarca, destacam-se suas ruas estreitas e empedradas, com suas casas baixas de adobe (tijolo cru e pedras lisas do leito dos rios), conservando sua fisionomia histórica. Seu nome na língua quéchua significa ''Povoado de Leão'' e na língua aymará ''Povoado da Terra Virgem''. Sua altura sobre o nível do mar é de 2.275 metros. É circundada ao norte pelo rio Purmamarca e ao sul pelas montanhas que formam a quebrada que leva o mesmo nome.
A pequena população é uma atração especial porque se localiza na base do imponente ''Cerro de los Siete Colores''. Suas construções pertencem ao século XVII e seu pitoresco traçado urbano foi realizado em volta da igreja principal de chamativo estilo clássico quebradenho.
A antiga igreja, declarada Monumento Histórico Nacional e que data de 1648, possui exteriormente muros de adobe e uma típica carpintaria em seu interior. Em toda a região as casas se destacam por ser de adobe, amassadas com terra e palha.
Persistem pela região costumes pré-hispânicos nas celebrações comunitárias como são as festas pátrias. Também é muito importante o culto à Pachamama (Mãe Terra) e outros rituais anteriores à colonização, que vêm desde o império Inca no Peru. A música também é protagonista principal nesta região e é executada com instrumentos próprios. Uma feira de artesanato acontece todas as tardes, na principal praça, com produtos baratos e com boa qualidade.
Aqui se encontra uma das belezas naturais mais importantes do noroeste: a Montanha das Sete Cores, famosa por suas pedras coloridas de origem sedimentária. Está às costas de Purmamarca, onde com seus frondosos arvoredos dão uma característica muito pitoresca à região.
As capas sedimentárias de diferentes tons nas quais predominam o vermelho, ocre e púrpura, constituem a beleza da Quebrada de Purmamarca, que conflui com a de Humahuaca. São formações de terra mineralizada, que compreendem sedimentos depositados no início da era paleozóica (cerca de 550 milhões de anos atrás).
Viagem feita a convite da Peugeot do Brasil.


