Este novo ''Incrível Hulk'' que chega hoje às telas brasileiras simultaneamente com o circuito internacional não poderia ser mais diferente do que seu predecessor de 2003, assinado por Ang Lee. De cara o filme anterior fez US$ 62 milhões; na segunda semana caiu para 18 e na terceira para 8. Um péssimo boca-a-boca selou o destino do filme, que simplesmente não era o que as platéias esperavam. Principalmente o público miúdo pré-adolescente, ali pela faixa dos 10 anos.
Ninguém havia preparado aquela expressiva fatia de espectadores para o inusitado e afinal risível encontro entre filme de arte e aventura de super-herói de história em quadrinhos, formato que Ang Lee levou à tela - Lee, vocês sabem, é o diretor de ''Brokeback Mountain''... Tudo o que a garotada queria mesmo era seguir o gigante verde esmagando os humanos maus e franzinos, mas foi surpreendida pelo indigesto viés intelectual que focava Hulk através da ótica de Freud...
E então a Marvel decidiu empreender outra investida, esta que agora toma conta dos cinemas - confira a programação na página 2. Este novo filme tem muito mais em comum com a série televisiva do final dos anos 1970 com que propriamente com a HQ.
E o personagem chega absolutamente físico porque muito mais simplificado, embora conservando alguma densidade psicológica, aquela velha história sempre recorrente do monstro que ninguém entende, a não ser como inimigo a ser dominado com muita violência - e quanto mais, mais poder e força para o super-herói. Um excelente Edward Norton - fã confesso do personagem - substitui Eric Bana no papel-título, e Liv Tyler entra no lugar de Jennifer Connelly como a ex-namorada, Betty Ross.
Como foi dada muita publicidade por ocasião das filmagens, as primeiras cenas do filme a platéia brasileira conhece bem. O dentista Bruce Banner (Norton) está no Rio atrás da cura para anular sua mutação que o leva a assumir o muito bravo monstro verde quando extremamente irritado. Vive escondido na favela da Rocinha, trabalhando e aprendendo português (há uma cena hilária por conta deste aprendizado).
Ele é descoberto pelos soldados do General Ross (agora William Hurt), em eletrizante e original sequência de perseguição a pé pelas ruas da favela. Banner recorre à sua ex, Betty Ross (Tyler), que também vai ajudá-lo a se livrar dos raios gama que contaminam seu sangue. Mas há ainda outro problema a enfrentar: um comando paramilitar liderado pelo vilão vivido por Tim Roth, que se injeta uma espécie de superpoção que o transforma em The Abomination. Ele e Hulk vão para um épico tudo ou nada no clímax da narrativa.
À exceção de um ou dois momentos mais calmos compartilhados por Banner e Betty durante a fuga, ''O Incrível Hulk'' não desperdiça um único plano em diálogos que não sejam absolutamente funcionais ao desenvolvimento da ação. Nada de conflituosas crises de angústia existencial, nenhum cão mutante. Há referencias bem-humoradas, como as participações de Robert Downey Jr como Tony ''Iron Man'' Stark e do próprio Stan Lee, o criador da HQ. Quem dirige é o francês Louis Leterrier, de ''Carga Explosiva 2'' e ''Cão de Briga''. Mais adequado para a ação impossível.
No Brasil, o maior inimigo de Hulk deverá ser este período escolar que pode não proporcionar a platéia que a aventura merece. No momento, o público potencial não leva vida fácil e enfrenta de mãos limpas o monstro verde das provas de fim de semestre. Mas o distribuidor não quis correr risco de outro monstro ainda pior, o da pirataria. Então o negócio é um olho na tela e outro nos livros.(C.E.L.J.)

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