'Hulk' é pura ousadia
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quinta-feira, 26 de junho de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Desde muito cedo, o que remete ainda à época dos preparativos antes do início da produção, a escolha de Ang Lee para dirigir ''The Hulk'' representou tanto uma curiosidade como uma espécie de garantia de que o filme não seria apenas mais um ''blockbuster'' de férias, com o foco de interesse tão somente em sequências de destruição em massa. Isto não significa que, mesmo psicologicamente mais aprofundado do que a maioria dos produtos regidos por orçamentos gigantescos (entre eles outras recentes adaptações de histórias em quadrinhos), o filme tenha deixado de lado a ação - e neste ponto está satisfeita a curiosidade inicial. Com certeza, a intensa movimentação desse herói ao mesmo tempo trágico e complexo na melhor tradição de King Kong e Frankenstein vai deixar as platéias extasiadas. Não que isto fosse prioridade para Ang Lee, mas o diretor também não ignorou o pressuposto espetacular que, afinal, era a principal certeza da manutenção de seu emprego...
De qualquer maneira, era bem significativa a envergadura do desafio para um cineasta que assinou trabalhos tão pouco hollywoodianos como ''A Arte de Viver'', ''Banquete de Casamento'', ''Comer, Beber e Viver'' e ''Razão e Sensibilidade''. Para Lee, mesmo tentado pelos fartos recursos traduzidos em U$ 120 milhões disponíveis, tratava-se primeiro de preservar a honestidade da fonte ficcional como foi concebida por Stan Lee e Jack Kirby, depois de se apropriar de importante símbolo da contra-cultura americana e, finalmente, entregar ao estúdio e ao público um longa-metragem de entretenimento, mas também profundo e pessoal. De modo geral, com um ou outro escorregão aqui e ali, o diretor deu conta do recado, principalmente porque não se arranhou na sua entrega autoral: ''Hulk'' abrange todos os grandes temas da afeição de Lee e que estão dispostos nos títulos de sua filmografia citados acima: os ritos de iniciação, a transmissão do saber, a enfermidades sociais.
''Hulk'', a partir de hoje em lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 2), resgata a história de Bruce Banner (o australiano Eric Bana, de ''Falcão Negro em Perigo''), um cientista que sofre um acidente genético e se converte no poderoso gigante verde cada vez que se estressa. O personagem foi apresentado ao mundo em 1962 pelos ''pais'' Stan Lee e Jack Kirby, que criaram o ''comic'' através da grife Marvel em 1978 a história em quadrinhos chegou à televisão, onde conheceu enorme sucesso - o personagem era então interpretado pelo ator Bill Bixby.
No presente roteiro de John Turman, Michael France e James Shamus, há a ênfase na saga familiar, em particular na relação filial, que acrescenta ao filme dimensões de tragédia grega com ressonâncias shakespeareanas, cortejando ainda conflitos clássicos da literatura também visitada pelo cinema, como a dualidade Jekyll-Hyde, o Prometeu-Frankenstein e King Kong. Há boa matéria freudiana entre o Dr. David Banner (Nick Nolte) e o filho Bruce, que carrega um terrível estigma radiativo genético; e o Dr. Freud também está presente em outro conflito de gerações, agora entre a atormentada noiva de Bruce (Jennifer Connely) e seu pai militar de carreira (Sam Elliott) - ''Hulk'' sinaliza com inteligência no sentido antibélico e contestador, outra de suas virtudes. Compreende-se, por este complexo viés, a irresistível atração que une o jovem casal. Com o discurso científico relegado a segundo plano a partir da metade do filme, o drama humano e intimista toma conta da narrativa, e Ang Lee concentra especial atenção na tragédia edipiana, mas, como já se ressalvou, sem esquecer suas obrigações contratuais que impunham espetaculares cenas de ação.
Mas mesmo aqui a direção de Lee impõe mais invenção do que o habitual encontrado nos mamutes do gênero ''quadrinhos no cinema'', mostrando principalmente ao público juvenil que duas dinâmicas aparentemente antagônicas - a íntima, discreta, introspectiva, dialogada, e a puramente física, exterior, explosiva - podem conviver em harmonia. Como linguagem narrativa, ''Hulk'' oferece os melhores momentos desde que o cinema foi invadido pela parafernália da era digital (mesmo que às vezes Hulk pareça rival de outro monstrengo verde, Shrek). Como, por exemplo, as super-imposições de planos e imagens, em que os ''fades'' recriam as páginas de histórias em quadrinhos diretamente na tela e movimentos de câmera aliados à edição produzem a ilusão da leitura natural de uma novela gráfica.
Com toda a certeza consolidado definitivamente na comunidade hollywoodiana por conta do confortável e merecido sucesso de ''O Tigre e o Dragão'', o taiwanês Ang Lee foi atrevido o suficiente para impor idéias arejadas a um projeto que tinha tudo para ser outra historieta apenas barulhenta. Mais uma vez sua desenvoltura voou mais alto do que a mesquinharia dolarizada da engrenagem dos grandes estúdios.


