‘‘Já tive a oportunidade de comer muitos alimentos inusitados em minha vida. Já comi, por exemplo, gafanhoto. É alimento muito simples. Gafanhoto se pode fazer no azeite de oliveira. É só fritar um pouquinho e, quando começa a estalar, você serve... Tem um gosto muito próximo ao do camarão, delicioso.’’
A fala calma e bem-humorada de Antônio Houaiss, em entrevista a Zuenir Ventura publicada no livro ‘‘3 Antônios & 1 Jobim’’, revela a simplicidade de um homem que dedicou a vida à compreensão do Brasil a partir do estudo de nossa língua. A culinária, neste contexto, era considerada por Houaiss uma forma de avaliação da cultura de um país. Dedicava-se à gastronomia não como glutão, mas como pesquisador.
Socialista, orientação que manteve com coerência por toda a vida, Antônio Houaiss via na explosão demográfica mundial um problema que deveria ser relevado. No Brasil, se refletiria nos conflitos pela terra, decorrentes também de sua distribuição desigual.
Em 1993, Houaiss alertava: ‘‘Na medida que houver um pouco mais de humanidade nesta distribuição, a população vai retornar ao campo e ser feliz. Não podemos nos esquecer de que a explosão demográfica é uma realidade tal que está pondo essencialmente em perigo a própria história brasileira. Temos um território imenso, com população mínima, e em face das carências humanas essas terras vão ser invadidas, não tenham dúvida.’’
Entre suas preocupações maiores estava a língua portuguesa e sua perpetuação. Considerado o maior filólogo brasileiro, Antônio Houaiss se auto-intitulava um ‘‘operário das palavras’’, um dicionarista. Mas atentava para o sentido comercial que os dicionários estavam tomando e a deturpação que poderia vir em consequência.
Franzino, baixo, Houaiss foi um carioca filho de libaneses. Entrou para o mundo da linguística aos 12 anos, ao ler uma obra em francês. No magistério conheceu Ruth Marques de Sales, com quem se casou. A lembrança de Ruth, anos após sua morte, era citada com muito respeito pelo pesquisador.
Antônio Houaiss se tornou também escritor e tradutor. Entre suas obras mais importantes está a tradução de ‘‘Ulysses’’, de James Joyce. Antes, havia ministrado aulas de latim, português e literatura, até se tornar vice-cônsul em Genebra. Ficou no serviço diplomático até 64, quando o regime ditatorial o aposentou sob acusações de envolvimento com a esquerda. Em 1990, o presidente Fernando Collor nomeou-o embaixador.
Durante o governo de Itamar Franco, Antônio Houaiss ocupou o Ministério da Cultura, mas abandonou-o em cerca de um ano reclamando do orçamento quase inexistente e da política viciada dos bastidores. Na política, ainda foi presidente do PSB. O filólogo também se empenhou para a unificação da língua portuguesa, tema polêmico que defendeu com seriedade.
Entre seus trabalhos, estão a organização brasileira das enciclopédias Mirador e Delta Larousse, dicionários e estudos literários como ‘‘Poesia e Estilo de Carlos Drummond de Andrade’’. Uma obra tão variada que inclui até livros sobre culinária e cerveja. Antônio Houaiss entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1971, tornando-se presidente em 1996.
Nos últimos anos Houaiss acumulou problemas de saúde, principalmente no aparelho digestivo, além de pneumonia e uma fratura no fêmur. Sua morte foi sofrível, após dias na UTI e interrupção do funcionamento de diversos órgãos. Ele preferia algo parecido ao que ocorreu com o amigo Manuel Cavalcanti Proença, também citado em entrevista a Zuenir Ventura, que teve morte súbita a sua frente. Ao relembrar o incidente, Houaiss exclamou: ‘‘É a morte que a gente deseja. Não sofreu nada.’’Clóvis Ferreira/AE(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)Antônio Houaiss: uma de suas maiores preocupações era a língua portuguesa e sua perpetuaçãoO filólogo Antônio Houaiss, que morreu no domingo, orientou seus trabalhos pela ótica socialista, postura que manteve até o fim

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