Hotel Serrador pode voltar aos tempos de glória
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quarta-feira, 19 de junho de 2002
Beatriz Coelho Silva<BR>Agência Estado 
Rio O Hotel Serrador deve voltar aos tempos de glória dos anos 40 e 50, quando políticos e artistas se hospedavam em seus espaçosos apartamentos. A sobreloja abrigava a boate Nigth and Day, de Carlos Machado, onde a alta sociedade se divertia nos shows de artistas famosos. Cinco anos depois de mudar-se para outro endereço, a Fundação Petrobrás de Seguridade Social (Petros), proprietária do imóvel, está negociando a venda para a construtora A. C. Lobato, especializada em restauração de prédios antigos, para recuperar o hotel, com o mesmo luxo dos tempos de seu criador, o empresário espanhol Francisco Serrador.
As duas partes não revelam os valores do negócio, por causa de pendências legais. Fala-se, no entanto, em investimentos de aproximadamente R$ 60 milhões, dos quais um terço é destinado à compra do imóvel e o restante, à recuperação, que deve durar dois anos.
O projeto vai influir na revitalização da Cinelândia. O Serrador é o maior edifício da área e poderá aproveitar parte das mil vagas do estacionamento subterrâneo sob a Praça Mahatma Ghandi, a ser inaugurado em setembro. A Petros integra o consórcio que vai explorar o estacionamento, situado em frente do hotel.
Reativar o Serrador vai mudar a cara da Cinelândia, afirma a diretora da A. C. Lobato, Gabriela Lobato. O metrô e o Aeroporto Santos Dumont ficam próximos, mas não há nenhum hotel de luxo nas redondezas. Dos 22 andares do Serrador, 17 seriam ocupados por 312 apartamentos e suítes, os cinco últimos, por escritórios, e a sobreloja se transformaria em um centro de convenções.
A recuperação do prédio é fácil, porque seu shaft (coluna onde passam as instalações elétricas e hidráulicas) se adapta às exigências atuais, informa um engenheiro da construtora. O prédio era moderno, quando construído, e previa as inovações tecnológicas posteriores. Não mexeremos na divisão interna, porque os quartos são maiores que o padrão atual.
Até os anos 60, o Hotel Serrador era o ponto de encontro de políticos e empresários, pois ficava junto ao Palácio Monroe, sede do Senado Federal, demolido nos anos 70. Muitas negociações começavam no plenário e terminavam nas mesas do Night and Day, lembra Manoel da Motta, que foi porteiro do hotel durante 22 anos e se manteve na função quando a Petros instalou sua sede.
Durante os anos 50, ficou conhecido como o hotel das misses, porque hospedava as moças que vinham de todo o Brasil para o concurso, com torcidas tão fanáticas quanto as do futebol. As festas da sociedade eram realizadas em seus salões, pois o Copacabana Palace, mais luxuoso, era considerado hotel de balneário.
Francisco Serrador, o construtor do hotel, foi um dos primeiros donos de cinema do País. Nascido na Espanha, chegou ao Brasil adolescente e pobre, no século 19, e ficou rico com uma rede de quitandas. No início do século passado, promovia sessões de cinema itinerantes e, nos anos 20, já milionário, construiu os quatro primeiros arranha-céus do centro do Rio, o Capitólio, o Glória, o Império e o Odeon, que tinham salas de exibição no térreo. Seu sonho era criar ali a Broadway carioca, que ficou conhecida como Cinelândia. O Hotel Serrador completava seu sonho de dar glamour à área.
A mudança da capital para Brasília atropelou seus planos, pois os políticos vinham menos ao Rio e a alta sociedade foi divertir-se na zona sul, junto à orla marítima. O Night and Day ainda resistiu, mas foi trocado pelas boates de Copacabana. O público dos grandes shows de Carlos Machado começava a preferir os shows de bossa nova, em pequenos bares.
Em 1977, quando a Petros comprou o prédio, o hotel ainda tinha prestígio. Fechamos o Serrador para não conhecer a decadência, disse um descendente de seu fundador, Antônio Paulo Serrador. Duas décadas depois, o fundo de pensão mudou-se e começou a procurar um investimento que lhe desse lucro, mas que também ajudasse a revitalizar Cinelândia. O Hotel Serrador começava a se tornar novamente realidade.


