Fortaleza, 15 (AE) - "Hotel Room", concorrente da Mostra Internacional Novos Talentos, do 9º Cine Ceará, decepcionou a platéia. O filme, típico produto independente, co-dirigido por Cesc Gay (Espanha) e Daniel Gimelberg (EUA), bem que procura novos caminhos de narrativa. Carentes de recursos ("fizemos o filme com um cartão de crédito e um grupo de amigos", disse Gay na apresentação), os cineatas resolveram trabalhar em locação única. A história passa-se toda num quarto de hotel em Nova York. Por ele, desfila uma fauna urbana variada: uma mulher e um homem, recém-casados, que se desentendem; um mágico, que chama uma prostituta pelo telefone e terá uma surpresa com a moça; um fotógrafo, que faz uma escala em NY antes de voltar para casa, mas acaba observando o que não deve pela janela.
Em preto-e-branco, "Hotel Room" procura fazer uma síntese entre o cinema cool de Jim Jarmusch e certo surrealismo tardio - pelo menos em alguns episódios. Não dá muito certo, é bom que se diga. E, a não ser talvez pela história do fotógrafo, que observa através de suas lentes uma moça ser agredida na rua, não se sente nenhum calor humano detectável em termômetros comuns. O episódio, aliás, é claramente decalcado do clássico "Blow Up", que Michelangelo Antonioni criou sobre um conto de Julio Cortázar ("Las Babas del Diablo").
A estrutura circular de narrativa (tão usada hoje em dia
como em "Pulp Fiction", de Quentin Tarantino, ou "Antes da Chuva", de Milcho Manchevski) parece, no caso de "Hotel Room"
um pouco desgastada. É o seguinte: o filme começa e termina pelo mesmo episódio. Só que, repetido no fim, ele terá um desfecho diferente. Em vez de criar surpresa, no entanto, causa sensação de déjà vu. Mesmo antes dele, no entanto, o público já se havia cansado e desistido do filme, deixando o Cine São Luís em levas cada vez maiores.
Claro, a dupla de cineastas tentou fazer algo diferente. Trabalhando com baixo orçamento, evitou temáticas batidas do cinema "indie", como violência pseudo-engraçada, problemas de geração, etc. No entanto, os diretores não conseguiram obter o efeito-surpresa que desejavam. Ou pelo menos não conseguiram comunicá-lo a quem estava na platéia assistindo ao filme.
Curtas e médias-metragens - Muitos dos concorrentes em curta e média-metragem já eram conhecidos de outros festivais. Mas algumas novidades interessantes já apareceram. A melhor delas foi o média "G - Constelação do Céu da Boca do Inferno", original recriação do universo do poeta Gregório de Mattos pelo cineasta baiano Pola Ribeiro. Pola procura destacar a atualidade do poeta barroco, conhecido como Boca do Inferno por seus versos satíricos e, digamos assim, desinibidos.
Consegue mostrar que Mattos é nosso contemporâneo não apenas pela temática agressiva e libertária, mas também pelos aspectos formais de sua obra. Trabalhando com aliterações e rimas internas, Mattos produziu uma poesia em muito aparentada aos procedimentos conteporâneos. O interessante é que o cineasta consegue construir essa ponte entre dois tempos em termos estritamente cinematográficos, manipulando as texturas oferecidas pelo vídeo, alterando as imagens, deformando-as poeticamente. Afinando, enfim, uma linguagem à outra, naquele procedimento que Haroldo de Campos (que aliás dá depoimento sobre o poeta) chamaria de transemiótico. Parece complicado, mas não é. Significa a operação de passar uma linguagem (a poesia, por exemplo) para outra (o cinema) sem muita degradação no processo. Explicar é fácil; difícil é fazer.
Se o trabalho de Pola Ribeiro conseguiu conquistar público e crítica, outros decepcionaram, como "Polêmica", de André Sampaio, que procura recriar o célebre desafio musical travado entre Noel Rosa e Wilson Batista. Batista provocava o poeta da Vila e este rebatia com uma obra-prima. Da briga saíram sambas como "Feitiço da Vila", "Palpite Infeliz" e outros. Um grande episódio da música popular brasileira. O curta pretende-se criativo. Mas, como se diz, há distância entre intenção e gesto. Se é louvável a tentativa de evitar linguagem burocrática, muitas vezes os criadores se esquecem de que é preciso dominar um idioma antes de subvertê-lo. No caso, a ordem dos fatores realmente altera o produto, mas realizadores jovens não costumam ter esse tipo de paciência. Às vezes acertam, e, caso mais raro ainda, acertam em cheio. Mas o índice de acertos é estatisticamente irrelevante.
Convidados - Mais uma figura ilustre chegou a Fortaleza na manhã de ontem para participar do Cine Ceará: o ator Paulo Autran. Ele vem representando o filme "O Enfermeiro", adaptado de Machado de Assis por Mauro Farias, e que será apresentado hoje no Cine São Luís, fora de competição. Competindo, à noite, estará o longa-metragem japonês "Peixes de Agosto", de Yoshiro Takahashi.

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