Renato Machado está se preparando para receber os candidatos à Presidência da República em sua sala de visitas, o ''Bom Dia Brasil''. A partir de amanhã, passarão pelo sofá do telejornal matutino da Globo os presidenciáveis Ciro Gomes, Anthony Garotinho, José Serra e Lula. Editor-chefe e apresentador do programa desde 96, Renato acredita que a tônica do ciclo de entrevistas será a elegância, que já se tornou marca registrada do ''Bom Dia Brasil''. ''As pessoas se dispõem a vir aqui às sete e meia da manhã nos visitar, ao vivo. Elas não podem ser recebidas a caneladas'', justifica, com a ressalva de que não vai faltar contundência. ''Vamos questionar com firmeza'', completa.
Quanto aos temas abordados, o jornalista acredita que não será possível fugir muito do que foi visto no ''Jornal Nacional'' e ''Jornal da Globo''. ''O país está vivendo uma crise cambial. É evidente que o tema vai ser predominantemente econômico'', esclarece Renato, que terá a companhia de Miriam Leitão no estúdio e o apoio de Alexandre Garcia em Brasília. Apesar de querer contribuir para que as propostas dos candidatos fiquem mais claras, facilitando a opção do eleitor, não esconde sua maior expectativa: ''Depois das entrevistas, vou tirar férias. Serão dez dias fora do ar'', encerra, com um largo sorriso.
De que modo o ''Bom Dia Brasil'' vai se diferenciar do ''Jornal Nacional'' e do ''Jornal da Globo'' nas entrevistas com os candidatos à Presidência?
Nosso tempo é maior. Vamos ter em torno de 30 minutos, uma conversa longa. Os candidatos vão ter mais tempo para manifestar suas idéias ou para lançar suas frases de efeito... As entrevistas vão seguir o formato do ''Bom Dia Brasil'', que é uma sala de visitas matinal, o que impõe um tom mais conversado ao programa. Vamos ser firmes na hora de questionar os candidatos sobre assuntos controvertidos, mas vamos fazer isso com a elegância que caracteriza o ''Bom Dia Brasil''. Não estamos aqui para fazer uma coisa inquisitorial.
Como você avalia até agora a cobertura telejornalística das eleições 2002?
Os resultados são excelentes, não só pela repercussão, mas pelo fato de os candidatos estarem sendo forçados a dizer o que não estava no ''script''. Acho que isso é um grande avanço e fixa um padrão de comportamento da cobertura política, como já aconteceu com as Diretas Já e com o ''impeachment''. O eleitor brasileiro não vai mais prescindir deste tipo de trabalho do jornalista, porque isso se torna um hábito. A gente tem de notar que este ano os candidatos estão com uma postura que valoriza o debate, o que é inédito na história política do país. Apesar do tom agressivo das campanhas, a discussão tem girado em torno de programas, de postura econômica, plataformas, desejos; tudo isso num nível de plena democracia e normalidade. E isso também estimula os jornalistas. Essa cobertura é parte essencial do processo democrático.
O candidato é um entrevistado mais difícil que os outros?
Normalmente, o político é um entrevistado difícil, porque quer vender o peixe dele. E é difícil, sobretudo, quando ele está em campanha. Acho que a conversa com os políticos tem melhorado muito no Brasil. A presença na tevê fez com que eles desenvolvessem um discurso bom para o meio. Mas, em campanha, as coisas mudam um pouco. Normalmente, os candidatos gostariam de ser vistos como eles gostariam de ser vistos. Isso exige de nós um treinamento compatível com esta postura.
Sua preparação para este tipo de entrevista é diferente da que normalmente você faz?
É diferente, porque há questões que ficam no ar. É preciso estudá-las. E há respostas que são óbvias, respostas que eles trazem no bolso do paletó. Isso exige um cuidado especial. Até porque são necessários isenção e equilíbrio, seja no tempo ou na distribuição dos assuntos. A minha postura no momento de formular as perguntas deve ser a do eleitor que ainda não sabe quem escolher.
É difícil manter esta isenção?
Para nós, não muda nada. O repórter não pode se engajar. O repórter que se engaja, seja numa filosofia, numa religião, num partido político, numa cruzada, mesmo as mais humanitárias, perde uma boa porcentagem de sua independência.

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