Hospitalidade conquista turistas na Austrália
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terça-feira, 13 de julho de 2004
Viviane Kulczynski<br> Agência Estado 
Perth - Eles se referem a si mesmos como ''aussies'', enchendo a boca no neologismo gentílico. Comem sanduíche numa lanchonete idêntica ao Burger King, mas que eles batizaram de Hungry Jack's na década de 70 e assim ficou. Adoram futebol, o deles, lógico menos violento que o rugby e mais dinâmico que o americano. E se divertem contando piadas e tirando sarro de neozelandeses e irlandeses. Os australianos são um povo cheio de originalidade, simpático, alegre e muito, muito hospitaleiro. Boa parte deste instinto acolhedor e da própria criatividade deve-se à maneira como se formou a sociedade australiana.
Pelo menos um em cada cinco cidadãos australianos nasceu no exterior e, de quebra, já passou pela experiência de chegar a uma terra estranha, com tudo o que isso implica. Por isso, o excesso de simpatia na acolhida acompanha o visitante do começo ao fim, com direito a se carregar na mala alguns mimos ofertados no caminho. Os aussies se desdobram para fazer da estada no país uma experiência inesquecível do motorista de táxi que anda vários quilômetros com o taxímetro desligado, só para mostrar a vizinhança em que nasceu, à funcionária do aeroporto, que brinda alguns com uma miniatura de canguru, símbolo indiscutível da Austrália.
O país, de proporções continentais e de extensões inacreditáveis de deserto (mais de um quinto de sua área total), é um caldeirão multicultural. Ainda assim, é difícil de dizer, à primeira vista, quem é da costa leste ou da oeste, do Norte ou do Sul. Somente os aborígines são mais facilmente detectáveis, pela cor da pele e pelos traços faciais. E os sotaques, que poderiam assustar os turistas, são imperceptíveis.
Difícil é se acostumar com a mania nacional de adotar corruptelas para tudo. De ''australian'' veio o apelido ''aussie'', ou simplesmente ''Oz''; se precisar de um guarda-chuva (umbrella em inglês), é mais fácil procurar por um ''brolly''... E por aí eles vão, encurtando palavras, distribuindo sorrisos e se identificando mais com o sudeste asiático que com os britânicos que chegaram no século 18 para povoar aquela imensidão, formada hoje por apenas 18 milhões de habitantes.
Embora a pneumonia asiática tenha atrapalhado um pouco o fluxo turístico na terra dos cangurus e dos coalas, o mesmo não se pode dizer dos atentados de 11 de setembro de 2001. Por causa do medo instaurado àquela época, a Austrália se tornou uma boa alternativa turística, principalmente pela distância do epicentro terrorista ainda que o país tenha apoiado as maluquices bélicas americanas.
Para os brasileiros que se divertem dizendo que a Austrália é o Brasil que deu certo , a porção leste do país é sinônimo de badalação e aventura. Parece que a gigante nação se resume a Sydney, Melbourne, Cairns e Grande Barreira de Corais. Um erro que deve ser urgentemente reparado. Cruzar a Austrália e desbravar a costa oeste revela agradáveis surpresas e não deixa ninguém decepcionado.
O imenso Estado da Austrália Ocidental (WA, que ocupa 2,5 milhões de quilômetros quadrados) é uma sucessão de 70 parques nacionais e de 12.500 quilômetros de praias convidativas, pontilhada vez ou outra por algumas manchas populacionais. Para se ter uma idéia, sua capital, Perth, concentra 80% da população do Estado, com 1,5 milhão de habitantes.
E é no oeste que estão algumas das melhores e mais belas reservas naturais. Em Monkey Mia, um paraíso a cerca de 850 quilômetros de Perth, golfinhos fazem a alegria dos gringos, que encaram as frias águas do Índico para alimentá-los. E tudo isso amparado na cordialidade e na simpatia de um povo que mistura o despojamento das comunidades costeiras a toques de provincianismo. Os sandgropers, ou australianos ocidentais, não têm a menor vergonha de dizer que adoram ir a Melbourne fazer compras em lojas de grife. Mas que, por outro lado, não trocariam o sossego do oeste pelo agito do leste.
Objetivamente falando, a Austrália Ocidental é a melhor porta de entrada para os brazucas. Isso porque a viagem até Perth, via África do Sul (com vôos da South African Airways partindo de São Paulo e com conexão apenas em Johannesburgo), economiza as tradicionais paradas nos vizinhos do Cone Sul e a travessia pelo Oceano Pacífico.


