Expirou o prazo de validade da velha MPB. Samba Pra Burro, CD de estréia do pernambucano Otto, apressa a mutação do gênero. Soa até revolucionário para os padrões ainda vigentes e cujo anacronismo estético se revela na interminável festa dos 40 anos da bossa nova, no milésimo disco de regravações de ‘‘clássicos’’ de fulano-de-tal e na já famosa influência nefasta exercida pelo grupo baiano.
Samba Pra Burro toca fogo no circo. A faixa promocional ‘‘TV a Cabo’’, estruturada na forma de samba, começa a difundir o trabalho de Otto via MTV. ‘‘Acabo de comprar uma TV a cabo / Acabo de entrar na solidão a cabo’’, diz o refrão, que acena para a crítica social.
A faixa, porém, é a mais comportada de um disco recheado de combinações inesperadas. Samba Pra Burro desafia críticos da moribunda MPB e, pior, os obriga a adotar o vocabulário do jornalismo pop - que tanto rejeitam - com sua avalanche de rótulos inventados a cada temporada para designar as ramificações da música eletrônica.
Otto, como está na moda dizer, ‘‘desconstrói’’ alguns mitos caros à música popular brasileira. A canção ‘‘Bob’’, por exemplo, faz referências à bossa nova na letra, nos vocais de Bebel Gilberto (filha de João Gilberto) e nos acordes de violão da segunda versão (a faixa abre e fecha o CD). Mas tudo sugere pastiche, sugado pelas camadas de teclados atmosféricos e batidas de drum’n’bass.
As harmonias de Tom Jobim ecoam em ‘‘Distraída Pra Morte’’, com samples de trumpete, vocais de apoio de Joana Gattis e beats programados. Bastariam as duas faixas para avalizar a escolha do disco como o melhor de 98 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Mas Otto extraiu outros trunfos de sua parceria com o produtor Apollo 9, que deixou apenas a faixa ‘‘Celular de Nanᒒ com instrumental totalmente acústico.
Feita em homenagem ao percussionista Naná Vasconcellos, a canção inclui arranjo para violoncelo e coral de mulheres. O drum’n’bass, hegemônico ao longo das 12 canções, bate ponto em ‘‘Low’’ (na qual Otto canta em francês numa interpretação que lembra as performances vocais de Chico Science), ‘‘Renaut / Pengeot’’ (mais referências francesas), ‘‘Re/Pe’’ (camadas de timbres com interferências de vozes ao telefone) e ‘‘Ciranda de Maluco’’ (estrutura de frevo com inserção de guitarras distorcidas).
Samba Pra Burro é mais um prego no caixão da velha MPB. Hora de apagar as velas e celebrar a dança.

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