O disc-jóquei Joel Lai revisa um montão de discos detrás de sua apertada cabine, em um dos clubes noturnos menores (mas de maior sucesso) de Hong Kong.
Coloca um novo sucesso de Londres no toca-discos e contempla a pista de dança. Há cinco anos, a multidão era composta de 90% de pessoas não-asiáticas. Hoje em dia, os 90% são de orientais.
Na fachada o clube exibe seu nome apocalíptico - ‘‘1997’’, que marca o início de uma nova era na vida noturna típica de Hong Kong. A moda ‘‘dance’’ que provocou uma explosão musical na Grã-Bretanha, se infiltrou em Hong Kong, criando novos estilos de vestir, uma sede crescente do mais novo na música européia e o auge do consumo.
Mas alguns qualificam a tendência como resíduo da influência britânica e duvidam que sobreviva agora, depois que a China recuperou a soberania do território, pondo fim a 156 anos de governo colonial britânico.
Depois da mudança de mãos, continuarão os jovens indo nas concorridas e animadas pistas de dança, para se balançar aos ritmos dance, intoxicados com a droga Ecstasy, tão em voga no momento na Europa? Ou sucumbirão ao ‘‘canto-pop’’, a música popular da região sul da China, o Cantonês?
‘‘Nos últimos 12 meses temos visto um boom incrível da moda dance européia em Hong Kong’’, diz Jo Brooks-Nevin, funcionário da Space, organizador de muitos eventos em Hong Kong, incluindo uma festa da ‘‘Unidade’’, para festejar a volta ao domínio chinês.
Em geral, a opinião é que a tendência se enraize, reforçada pelo atrativo que tem para a população chinesa local a atual música ocidental, com sua bateria marcada e os sons cósmicos dos teclados eletrônicos.
Os trajes colantes usados nos clubes noturnos também atraem os chineses, que encontram nesses locais mais uma maneira de se divertir. ‘‘Cada vez que venho aqui, o lugar já se atualizou em relação a Londres’’, conta o disc-jóquei britânico Paul Oakenfold, que é ídolo na Europa e se apresentou com a cantora Grace Jones e o excêntrico Boy George, na festa da ‘‘Unidade’’, no último sábado.
‘‘Há mais pessoas no ambiente local que têm consciência da onda dos clubes, que escutam música européia e que se interessam pelas tendências e roupas que se usam’’, disse à Reuters.
DrogasCertamente, junto com a grande concorrência nas pistas de dança, também vem se impondo a droga que está na moda na vida noturna européia, algo que segundo a polícia local, veio para Hong Kong a partir do sul da China.
Entre 1990 e 1994, a polícia de Hong Kong apreendia uma média de apenas 6 a 27 pastilhas por ano. Em 1995, essa cifra alcançou as centenas, e um ano mais tarde, chegou a 15 mil.
Até agora em 1997, as autoridades confiscaram 40 mil comprimidos da droga, segundo o inspetor da polícia de Hong Kong Bruce Hawkins. ‘‘Antes, só achávamos Ecstasy entre os moradores estrangeiros. Depois, com o auge dos clubes, o consumo explodiu entre a população local’’, revela o policial.
Hawkins assinala que a oferta de entorpecentes parece vir da Holanda. Pequenas quantidades de contrabando também chegam através do sul da China, onde parece haver grande produção de metanfetaminas, base da droga conhecida como ‘‘Ice’’ (Gelo), às vezes vendida como Ecstasy.
ModismosA população nativa se rende de todos os modos à nova onda. Ann Woo, de 23 anos, estudante de Moda na Universidade Politécnica de Hong Kong, começou a ir nas festas ‘‘dance’’ neste ano.
‘‘É muito diferente. E bastante emocionante. Eu gosto do jeito como as pessoas se vestem e todo mundo dança até ficar esgotado’’, narra. Ela diz também que os estilistas de Hong Kong muitas vezes se inspiram nos modelos que são usados nos clubes noturnos europeus, como as camisas de plástico ou rayon em cores chamativas, os sapatos grandes de tons pastel e calças boca-de-sino justas.
‘‘O pessoal local se familiariza cada vez mais com a música, com as festas’’, afirma Joel Lai, de 29 anos, um dos disc-jóqueis mais populares de Hong Kong.
Mas os temas europeus que Lai e seus colega oferecem em outros locais noturnos devem fazer face à competição representada pelo ‘‘canto-pop’’, o ritmo romântico favorito entre milhões de chineses em toda a Ásia.
Os cantores dessa música cantonesa são endeusados em Hong Kong, onde protagonizam de maneira regular os filmes produzidos localmente e enchem as páginas culturais dos jornais.
Brooks-Nevin, da Space, diz que com o número cada vez maior de disc-jóqueis locais e a popularidade da música e das festas ‘‘dance’’, esses ritmos estrangeiros continuarão tocando nos concorridos clubes noturnos.
Um punhado de clubes que tocam a nova música dançante da Europa já se instalou no outro lado da fronteira, na próspera cidade chinesa de Shenzhen.

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