O homossexual típico do cinema brasileiro é marginal ou subempregado, usa roupas, maquiagem e gestual espalhafatosos, é solitário, perigoso, alienado e só pensa em sexo. Esse é o ‘‘retrato cruel’’ a que chegou o professor de cinema e animador Antônio Moreno, de 46 anos, autor da tese de mestrado ‘‘A Personagem Homossexual no Cinema Brasileiro’’, defendida na Unicamp. ‘‘O gay é muito interessante desde que ele se carnavalize e fique próximo da Carmem Miranda’’, diagnostica.
O homossexualismo é muitas vezes abordado como um recurso temporário para ascensão social de jovens ou, em casos mais extremos, como um sintoma da loucura progressiva que acomete a personagem.
Moreno analisou 125 filmes de longa-metragem e encontrou uma predominância do que chama de ‘‘gay clown’’, a personagem estereotipada que nunca aparece como cidadão. ‘‘Todo o cinema latino-americano tende a promover a rejeição do homossexual por meio dos clichês da feminilidade exagerada’’, afirma. Cenas de lesbianismo por sua vez, são frequentemente um bônus para o voyeurismo heterossexual masculino, como em ‘‘Noite Vazia’’, de Walter Hugo Khouri, e dezenas de pornôs da ‘‘Boca do Lixo’’.
Curiosidades A pesquisa revelou também alguns casos curiosos como o de ‘‘Uma Verdadeira História de Amor’’, de Fauzi Mansur (1971), no qual um homem se apaixona por um menino de rua, que ao final revela sua real identidade feminina. ‘‘Foi a maneira que o diretor encontrou de burlar a censura’’, diz Moreno.
Para o autor da tese, o filme mais homofóbico do cinema brasileiro é ‘‘Amor Bandido’’, de Bruno Barreto, e entre os mais ‘‘decentes’’ figuraram ‘‘Romance’’, de Sérgio Bianchi, ‘‘Leila Diniz’’, de Luiz Carlos Lacerda, e ‘‘O Menino e o Vento’’, de Carlos Hugo Christensen (1966), em que o tema é tratado pelo viés do realismo fantástico. A incompreensão geral em torno do universo homossexual é vista por Antônio Moreno como uma extensão da costumeira dificuldade em ‘‘falar do outro’’ e, no fundo, um reflexo da tradição cristã, que ‘‘recusa as personagens incapazes de crescer e multiplicar-se’’.

mockup