Homossexual é estereotipado pelo cinema nacional, diz professor
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terça-feira, 31 de dezembro de 1996
Agência Estado 
O homossexual típico do cinema brasileiro é marginal ou subempregado, usa roupas, maquiagem e gestual espalhafatosos, é solitário, perigoso, alienado e só pensa em sexo. Esse é o retrato cruel a que chegou o professor de cinema e animador Antônio Moreno, de 46 anos, autor da tese de mestrado A Personagem Homossexual no Cinema Brasileiro, defendida na Unicamp. O gay é muito interessante desde que ele se carnavalize e fique próximo da Carmem Miranda, diagnostica.
O homossexualismo é muitas vezes abordado como um recurso temporário para ascensão social de jovens ou, em casos mais extremos, como um sintoma da loucura progressiva que acomete a personagem.
Moreno analisou 125 filmes de longa-metragem e encontrou uma predominância do que chama de gay clown, a personagem estereotipada que nunca aparece como cidadão. Todo o cinema latino-americano tende a promover a rejeição do homossexual por meio dos clichês da feminilidade exagerada, afirma. Cenas de lesbianismo por sua vez, são frequentemente um bônus para o voyeurismo heterossexual masculino, como em Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri, e dezenas de pornôs da Boca do Lixo.
Curiosidades A pesquisa revelou também alguns casos curiosos como o de Uma Verdadeira História de Amor, de Fauzi Mansur (1971), no qual um homem se apaixona por um menino de rua, que ao final revela sua real identidade feminina. Foi a maneira que o diretor encontrou de burlar a censura, diz Moreno.
Para o autor da tese, o filme mais homofóbico do cinema brasileiro é Amor Bandido, de Bruno Barreto, e entre os mais decentes figuraram Romance, de Sérgio Bianchi, Leila Diniz, de Luiz Carlos Lacerda, e O Menino e o Vento, de Carlos Hugo Christensen (1966), em que o tema é tratado pelo viés do realismo fantástico. A incompreensão geral em torno do universo homossexual é vista por Antônio Moreno como uma extensão da costumeira dificuldade em falar do outro e, no fundo, um reflexo da tradição cristã, que recusa as personagens incapazes de crescer e multiplicar-se.


