São Paulo - O horror pelo qual os judeus passaram nos campos de concentração nazistas está fartamente documentado em estudos acadêmicos, livros e filmes. Esses lugares, no entanto, também aprisionavam negros, deficientes físicos e mentais, ciganos e homossexuais. Todos eram considerados inferiores pelo regime e o tratamento que tiveram nesses campos ainda hoje não é amplamente conhecido. Rudolf Brazda, 98 anos, é, segundo o pesquisador francês Jean-Luc Schwab, o último sobrevivente do grupo que os nazistas denominaram de ''triângulo rosa'' e que era submetido a trabalhos forçados no campo de Buchenwald, leste da Alemanha. Os integrantes desse grupo, formado só por homossexuais, tinham um triângulo rosa aplicado no uniforme - assim como os judeus tinham a Estrela de Davi.
Lúcido e dono de uma vitalidade invejável, Brazda aceitou contar a sua história para Schwab. As declarações foram compiladas, os dados históricos checados e agora o pesquisador lança o livro ''Triângulo Rosa - Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista''. ''Todo gay era obrigado a usar no uniforme um triângulo rosa para ser facilmente identificado'', disse o autor. Ao todo foram deportados para campos de concentração 10 mil homossexuais. Antes de Hitler assumir o poder, já havia uma lei que previa prisão para homossexuais. Durante o 3º Reich, a lei foi endurecida. Mesmo após o fim da guerra, ser homossexual continuou sendo ilegal na Alemanha, Áustria e França. ''Cerca de 40% dos homossexuais sobreviveram aos campos, mas foram forçados a manter silêncio, já que eram considerados pessoas fora da lei'', destaca Schwab.
Detalhes sobre como era o tratamento dado a homossexuais no campo e que tipo de trabalhos eles faziam são revelados no livro. Uma das partes mais interessantes da obra é aquela em que o autor fala sobre como os prisioneiros mantinham relações sexuais dentro do campo de Buchenwald, já que eram agrupados num mesmo barracão. Um trecho do livro diz: ''Para Rudolf, prestar os favores sexuais exigidos pelos mais velhos não agradava à sua sexualidade. Mas é um mal necessário.'' O autor completa: ''Tudo o que Rudolf me disse, eu tentei checar em documentos oficiais dos nazistas que foram arquivados por entidades como a Cruz Vermelha.'' Schwab acredita, ainda, que a obra poderá servir de exemplo para que os homossexuais assumam sua sexualidade. ''Rudolf é um exemplo brilhante. Durante o período nazista, ele foi muito aberto sobre sua opção sexual'', diz.

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