HOMENS QUE DANÇAM
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de abril de 2001
Jackeline Seglin De Londrina 
Meninos têm de jogar futebol, lutar boxe... Essa é a frase dita pelo pai de Billy Elliot, personagem central do filme homônimo, quando descobre que o filho resolveu fazer balé. O filme de Stephen Daldry, em cartaz em várias salas paranaenses (veja programação de cinema na página 4), conta a história de um garoto de 11 anos, interpretado por Jamie Bell, que prefere trocar o boxe e as brincadeiras de rua pela dança. Para isso, tem de enfrentar as convenções sociais.
Billy assiste a uma aula de balé e se encanta pela dança. Começa então sua luta pessoal para conseguir trocar as luvas pelas sapatilhas. Tarefa nada fácil para um morador de uma cidadezinha mineira da Inglaterra que vive um clima de tensão: a greve dos mineradores no ano de 1984. O pai e o irmão de Billy estão entre os grevistas. É nesse clima que Billy tenta realizar seu sonho.
Em mais este caso, a ficção reflete uma situação real. Muitos bailarinos sofrem preconceitos da família e da sociedade. A Folha 2 entrevistou bailarinos que frequentaram a Escola Municipal de Dança de Londrina (EMD) e superaram as dificuldades e os preconceitos, com um mesmo sonho: ser grandes naquilo que fazem.
O bailarino Marx Bruno, 21 anos, teve que ultrapassar barreiras para poder chegar à companhia Ballet de Londrina. Tudo começou em Natal (RN), onde ele morava com a família. Na época, Marx era escoteiro e foi convidado por um amigo de grupo, que fazia balé, a experimentar uma aula. No dia seguinte, ele deu a notícia aos pais. A surpresa da família foi dupla: o irmão mais velho do garoto resolveu fazer balé também.
Os pais do bailarino somente foram conferir a performance do filho quando ele retornou a Natal, três anos depois, com o espetáculo Ethos. Eles gostaram e até vieram me cumprimentar depois. Marx Bruno mudou-se para Londrina aos 17 anos, como bolsista da EMD. Hoje o balé é o meu sustento. Não dependo mais da minha família, diz, orgulhoso. Ele mora no alojamento da escola e cursa o supletivo de Ensino Médio pela manhã.
A música e a dança clássica encantaram esse menino que nunca gostou de dançar. Fiz ginástica olímpica, judô, caratê e capoeira. Não sei dizer ao certo o que balé passou a significar para mim. Só sei que gostei.
Da mesma forma que existem os pais que colocam barreiras, há os que apóiam a escolha dos filhos. É o caso da mãe de Raphael Panta, de 16 anos, integrante do Ballet de Londrina. Maria Lúcia Santos, de 40 anos, diz que apóia o filho desde o começo, e o fez principalmente quando o pai eles são separados começou a criticar a sua escolha. Digo para ele que o que as pessoas pensam ou falam não interessa. O que importa é o que ele quer, observa. As pessoas falam mesmo. Aqui no bairro tem gente que se decepciona quando falo que meu filho é bailarino. Para Maria Lúcia, o importante é ficar sempre do lado de Raphael. Graças a Deus as pessoas o consideram muito no Ballet. E ele é um bom bailarino, apesar de ainda novo.
Raphael Panta entrou para a EMD por acaso. É que o garoto costumava levar a irmã e a prima às aulas de balé. Minha irmã insistiu para que eu fizesse uma aula e acabei entrando para a escola aos 13 anos, lembra. No começo não gostei muito, mas depois fui me adaptando. Gostava dos movimentos. Hoje, nem prima, nem irmã fazem mais aulas.
Enquanto em casa tudo caminhava bem, na escola era diferente. As brincadeiras de mau gosto perseguiam o garoto: me chamavam de bailarina, cantavam música clássica toda vez que eu passava.... Raphael já chegou a perder a paciência e partiu para briga com um garoto. Hoje não ligo mais, diz. Fazer o quê? Na tevê, por exemplo, só sabem mostrar o bailarino em sátiras. Isso é coisa da sociedade.
Raphael Panta morava em São Paulo e há seis anos mudou-se para Londrina. Hoje também faz supletivo e, como bailarino, ajuda no sustento da casa. No ano passado, ele teve uma grata surpresa, quando foi convidado para substituir um integrante de um grupo de Assis num evento em São Paulo. Acabou considerado o melhor bailarino do Mapa Cultural Paulista.
O balé também pode ser pivô de mudanças radicais na vida de jovens que se interessam pela dança. Foi o caso do ex-garçom Marciano Boletti, de 29 anos. Nesse caso, não teve família nem amigos que atrapalhassem. Sempre fui muito independente. Trabalhei em hotelaria como mensageiro e garçom desde os 14 anos de idade, diz. Minha família veio do sítio quando eu tinha sete anos. Meus pais eram separados e minha mão cuidava de dez filhos. A gente tinha que se virar.
Depois de trabalhar em muitos hotéis de Londrina, Boletti se aproximou do balé aos 17 anos. Nem sabia o que era. Eu fazia dança de salão, era forrozeiro e adorava dançar. Saía dos hotéis e ia para os clubes. Por ser fanático por tango, Boletti resolveu procurar aulas específicas em uma academia. Era a Oficina de Dança na qual Leonardo Ramos dava aulas. Não tinha tango, mas me ofereceram uma bolsa para fazer balé e resolvi experimentar. Assisti a uma aula e gostei.
Ao contrário de outros casos, ele encontrou apoio. As pessoas que conviviam comigo não eram mais crianças. Minhas namoradas tinham sempre idades entre 25 e 30 anos. Então eu mergulhava e falava com orgulho que fazia balé. Nos hotéis, os garçons e hóspedes sabiam e me cumprimentavam, os gerentes me liberavam para viajar com a companhia, conta orgulhoso.
Até os 24 anos, Boletti levou as duas atividades. Mas em 1997 optou por viver de balé, como vem fazendo até hoje, como professor de dança e bailarino da companhia Ballet de Londrina. Pai de duas filhas gêmeas de três anos, Boletti tem orgulho de dizer que suas garotas adoram vê-lo no palco, apesar da pouca idade. A dança é minha forma de arte, de expressão, comenta.
O balé deu um novo sentido à vida de Marciano Boletti. Uma guinada de muitos graus, como ele gosta de dizer. Tinha uma vida completamente diferente. Se não tivesse passado aquele dia em frente àquela escola de balé, iria seguir a minha vida de sempre. Muda tudo, principalmente sua forma de pensar. Quanto aos preconceitos, ele é direto: As pessoas estão dispostas a tirar sarro de tudo.
O diretor do Ballet de Londrina e coordenador da EMD, Leonardo Ramos, conta que os casos de preconceitos com alunos são muitos. Desde pais que não permitem que o filho tenha na dança algo importante para a vida até os alunos que chegam a fazer aulas escondidos para não contrariar a família. Tivemos um aluno que parou com as aulas porque a mãe não queria. Por incrível que pareça, o pai era o único apoio do rapaz. Hoje, ele é bailarino profissional e o seu salário tem grande peso no orçamento familiar. Ramos alerta que o preconceito não se restringe apenas a meninos. Há muitos pais que permitem que a garota faça balé apenas como parte da formação. Na hora de coisas mais importantes, de decidir a vida, a dança tem que ficar de fora. Muitas famílias não permitem que os filhos tentem ou quebrem a cara, conclui.
Billy Elliot explica bem a paixão pela dança em uma de suas frases no filme: desapareço, e a única coisa que sinto é eletricidade.


