J. Mantovani/DivulgaçãoChama-se ‘‘De Lalá para Cᒒ. O homenageado, Lamartine Babo. A cantora, Márcia Salomon. Que conseguiu a proeza de encontrar aproximações sonoras da música de Lamartine com alguns compositores contemporâneos como Rita Lee, Chico Buarque, Caetano Veloso, Moraes Moreira, Luiz Tatit, entre outros. É uma licença, uma liberdade de sentimento, um conceito que Márcia burilou e que, no entanto, não se impõe como tese ou afirmação. Ela quer apenas - e consegue - mostrar que estrutura mélodica e poética de Lamartine de tão bem elaborada soa atemporal e, consequentemente, pode ter influenciado esse ou aquele compositor dos dias atuais.
É, de qualquer forma, um trabalho pretensioso. Arriscado mesmo, já que pode provocar a ira dos puristas da Música Popular Brasileira que não admitem profanação ou arranhões em totens. Márcia decidiu correr o risco e apresenta um trabalho cuja marca é a ousadia, obviamente, mas que em momento nenhum soa como desrespeitoso. Ao contrário. ‘‘De Lalá para Cᒒ é uma reverência delicada e elegante que ela faz a um dos principais formadores de opinião da nossa rica música.
O disco é de uma singeleza franciscana. Márcia e cia conseguiram imprimir doçura e serenidade sem provocar bocejos no ouvinte - sim, há muita gente por aí que confunde simplicidade com chatice. Os arranjos foram feitos de maneira a valorizar o canto, agora menos técnico (mas assim mesmo, em algumas faixas, contido) de Márcia Salomon. E, claro, pelas seleções das músicas tanto de Lamartine quanto de outros possíveis influenciados na visão particular da cantora.
Ao todo, 14 faixas. A maioria, agrupada de acordo com a também possível similaridade sonora. De Lamartine Babo foram pinçadas pérolas como ‘‘Aí, Hein’’ (dele com Paulo Valença) que aparece ao lado de ‘‘Grau Dez’’ (dele com Ary Barroso) e, pasmem, ‘‘Qual É, Baiana?’’ (Caetano e Moacir Alburquerque). Agora, só mesmo num conceito muito particular para unir, numa mesma faixa Lamartine Babo (‘‘Verbo Amar’’) e Guilherme Arantes (‘‘O Melhor Vai Começar’’).
Márcia consegue dignificar a música de mister Arantes, um compositor que parece ter compromisso apenas com os dials das rádios de frequência modulada. A brejeirice e poesia podem ser encontradas na faixa em que ‘‘Pistolões’’ (Lamartine Babo) deixa claro o parentesco com ‘‘Festa do Interior’’ (Moraes Moreira e Abel Silva).
Seria ou não de Lalá?Coincidentemente, a melhor faixa do disco é também a mais polêmica. Trata-se da belíssima ‘‘Dia de Jejum’’, que Márcia canta maravilhosamente bem, assinada por Lírio Panicalli e que seria também de Lamartine, como consta no LP ‘‘Isto É Lamartine’’, gravado ao vivo em agosto de 63. Márcia decidiu colocá-la assim mesmo no disco, tomando cuidado de acrescentar uma espécie de nota de esclarecimento no encarte.
‘‘De Lalá para Cᒒ traz também faixas em que não há a fusão da música do tal Lalá com outros compositores. Isoladas, aparecem ‘‘Shangri-lᒒ e ‘‘Meu Brazil é com S’’ (ambas de Rita Lee e Roberto de Carvalho), ‘‘Cada um, cada um’’ (Ronaldo Barcelos) e ‘‘Quando o Carnaval Chegar’’ (Chico Buarque). Distribuídas inteligentemente pelo CD, essas músicas servem como uma espécie de enigma para o ouvinte - ‘‘teriam elas influências da musicalidade de Lamartine Babo?’’. A maioria, sim. ‘‘Shangri-lᒒ, por exemplo, não.
O importante, nessa história toda, é que Márcia Salomon, uma londrinense de coração, conseguiu com ‘‘De Lalá para Cᒒ fazer um disco popular com laivos de sofisticação. Ou seja, cinco anos depois do importante, porém sisudo ‘‘Mundos e Fundos’’, ela se mostrar capaz de sair da redoma elitista sem arranhar sua reputação de intérprete exigente.

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