ReproduçãoQuarteto em Cy, MPB-4 e Chico Buarque: faltou emoção Dezenove anos depois, as oito vozes se unem novamente em disco - o encontro anterior aconteceu no belíssimo ‘‘Cobra de Vidro’’. Desta vez, o MPB-4 e o Quarteto em Cy, dois dos grupos vocais brasileiros de maior longevidade artística, resolveram regravar músicas - algumas clássicas - feitas por Tom Jobim e Chico Buarque. Chama-se ‘‘Bate-Boca’’ (Polygram). Catorze faixas ao todo. Pois bem, mesmo com a qualidade do repertório e a importância dos cantores, o disco não deixa de ser um produto banal. Sim, banal. Falta emoção.
É um disco quadradinho demais. Ou seja, nada que qualquer coral desconhecido não pudesse fazer. O entrelaçamento de vozes peca pela falta de originalidade. Ficou confinado àquela fórmula ginasial em que meninos cantam uma parte, as meninas outras e, no final, todos cantam juntos, para alegria geral da ‘‘tia’’ que os ensaiou exaustivamente.
Nem a coerência em homenagear Tom e Chico (tanto o MPB-4 quanto o Quarteto em Cy já gravaram, em discos solos, zilhões de músicas dos dois) e muito menos o repertório incontestável conseguem dar um brilho maior ao disco. E olha que há participação de gente de peso nos bastidores, como Dori Caymmi na regência de cordas, Jaques Morelenbaum (cello na faixa ‘‘Olha, Maria’’), Cristóvão Bastos, Maurício Maestro, entre outros.
Além do mais, o MPB-4 e o Quarteto em Cy contribuem ainda para a banalização dos tais projetos especiais que jogam elogios a esse ou aquele compositor. Tom Jobim e Chico Buarque, numa dessas, já estão bastante manjados. Manjados no sentido de regravações e não no quilate de suas obras. Mas como gosto é gosto, afinidade é afinidade e já que não tem jeito, mais uma vez salve Tom e Chico.
Um tal JulinhoChico Buarque participa em três faixas, duas quais como ele mesmo (‘‘Meninos eu vi’’ e a ‘‘A Violeira’’) e uma outra escondido sob Julinho de Adelaide (na deliciosa ‘‘Biscate’’), pseudônimo que usou na década de 70 para enganar a censura burra e hipócrita da ditadura militar. É sob esse pseudônimo que ele escreveu ‘‘Acorda Amor’’.
Para o repertório foram selecionadas, por exemplo, músicas que apesar de belas já se tornaram um tanto quanto cansativas de se ouvir. É o caso de ‘‘Anos Dourados’’ e ‘‘Eu Te Amo’’. E é aí que caberia ao MPB-4 e ao Quarteto em Cy fornecer uma pouco mais de originalidade para que tais músicas não ficassem naquela lenga-lenga vocal.
Mas o disco tem lá suas faixas interessantes, sim. ‘‘A Violeira’’ e ‘‘Imagina’’ são dois dos exemplos. Ambas foram compostas em 83 especialmente para o filme ‘‘Para Viver um Grande Amor’’, de Miguel Faria Júnior. Ah, vale a pena também citar ‘‘Pois 钒 mesmo que depois da gravação de Elis Regina seja difícil conseguir extrair mais emoções dolorosas.
A faixa mais interessante - talvez pelo valor histórico - é ‘‘Bate-Boca’’, uma gravação caseira que registra Tom Jobim solfejando a canção, explicando o título e sugerindo que a inclusão de flauta e cavaquinho tiraria um pouco do ar ‘‘tchaikovskiano’’. Era para Chico colocar letra mas acabou desistindo. É nela, justamente nessa faixa, que o MPB-4 e o Quarteto em Cy mostram todo o vigor e criatividade vocal que deveriam permear todo o disco. Fica para próxima, não é mesmo?

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