Homenagem explícita
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de janeiro de 2005
Luiz Fernando Vianna<br> Folhapress 
Rosa Passos parece não se incomodar com a alcunha ''João Gilberto de saias''. À semelhança de seu ídolo, a cantora (também) baiana repisa com traços de obsessão clássicos da bossa nova - clássicos de João.
Assim sendo, mais um disco de Passos dedicado ao mestre, mesmo que com carinho, poderia ter um insuportável gosto de ''mais do mesmo''. No entanto, ''Amorosa'' - explícita homenagem a ''Amoroso'' (1977), um dos maiores discos de João- é belíssimo, emocionante, quase original.
O CD chegou ao Brasil em dezembro, quatro meses após ser lançado nos Estados Unidos pela Sony Classical. Passos se tornou uma das apostas do poderoso selo depois de participar, em 2003, de ''Obrigado, Brazil'', o disco do violoncelista franco-americano (e filho de chineses) Yo-Yo Ma que levou dois Grammy e se tornou best-seller internacional -gerando uma versão ao vivo em 2004. Yo-Yo Ma até participa de ''Amorosa'', mas só na faixa-extra ''Chega de Saudade'', que está longe de ser a melhor do disco. Além de Passos no violão, os músicos que respondem pela incrível qualidade sonora do CD são Hélio Alves (piano), Paulo Paulelli (baixo), Cyro Baptista (percussão) e Paulinho Braga (bateria). Este último, um dos maiores instrumentistas brasileiros e que tocou com Tom Jobim nos últimos anos de vida do maestro, tinha a função de substituir Joe Correro, o chefe da cozinha de ''Amoroso''. Mas Paulinho se sai bem por causa do segredo de ''Amorosa'': nada no CD é cópia do disco de João; tudo é alusão, reverência, só que com toques próprios, desvios no repertório, nos arranjos e nas interpretações que o diferenciam da matriz.
Assim, as cordas orquestradas por Jorge Calandrelli são lindas sem serem clones das que Claus Ogerman fez para ''Amoroso''. Para comparar e admirar os dois trabalhos, basta ouvir as quatro músicas que estão nos dois discos: ''Wave'', ''Besame Mucho'', ''Retrato em Branco e Preto'' e ''S'Wonderful''.
Talvez até para evitar que a homenagem virasse cópia, Passos deixou as demais quatro canções de ''Amoroso'' de fora, trocando-as por outras do repertório do mestre, como ''Pra Que Discutir com Madame'', ''Lobo Bobo'' e ''O Pato'' - com a participação de Paquito D'Rivera no clarinete.
Mas, se for o caso de escolher a melhor faixa, o voto vai para a primeira: uma versão de ''Você Vai Ver'' que abusa de delicadeza e mostra, à moda de Tom e João, como menos pode ser mais. No mesmo estilo, outro grande momento do CD é ''Que Reste-T-Il de Nos Amours'', o clássico de Charles Trenet, que Passos refaz ao lado de Henri Salvador.
Serviço:
- ''Amorosa'', disco de Rosa Passos. Lançamento: Sony. R$ 30, em média


