O divino, o autor de ‘‘As Rosas não Falam’’, o mestre Cartola é o homenageado da semana. Um especial vai ao ar hoje, às 23h30, na TV Cultura antecipando a efeméride em torno dos 20 anos da morte do compositor a serem celebrados na próxima quinta-feira.
Agenor de Oliveira, o Cartola, aparece interpretando seus clássicos, entre eles ‘‘O Mundo é um Moinho’’, ‘‘O Sol Nascerᒒ e, claro, ‘‘As Rosas Não Falam’’. O programa foi gravado em 1974 com direção de Fernando Faro. A data é emblemática. Marca o ano em que Cartola gravou seu primeiro disco, quando já estava com 66 anos e relegado ao ostracismo pelas grandes gravadoras.
Antes de ser alçado ao panteão dos gênios indiscutíveis da música popular brasileira, o músico viveu à beira da sarjeta. Ainda moço, deu duro como servente de pedreiro, expediente que cumpria com um chapéu-coco na cabeça, o que daria origem ao pseudônimo. Iniciou-se na malandragem do samba conduzido pelo amigo e parceiro Carlos Cachaça.
Perambulando pelas noites, bebeu todas e foi expulso de casa pelo pai. Passou a dormir em trens de subúrbio e, mais tarde, numa zona do meretrício onde contrairia sucessivas doenças venéreas. Com amigos, fundou a Estação Primeira da Mangueira escolhendo o nome e as cores – verde e rosa – da famosa escola de samba carioca.
Nos anos 30, conheceu e tornou-se amigo de Noel Rosa, além de ter inúmeras composições gravadas pelo primeiro time da música popular brasileira, gente como Francisco Alves, Mário Reis, Sílvio Caldas e Carmen Miranda. Na começo da década seguinte, criou com Paulo da Portela o programa de rádio A Voz do Morro e foi eleito ‘‘Cidadão Samba’’ desfilando em carro aberto com batedores da polícia abrindo caminho para ele.
Pouco depois, Cartola sumiria inexplicavelmente do meio musical. Na época, era lembrado como uma lenda e dado como morto. Até sambas foram compostos e cantados em sua ‘‘memória’’. Neste período nebuloso, sobreviveu lavando carros em Ipanema e trabalhando como vigia noturno de um prédio até ser redescoberto pelo cronista Sérgio Porto.
Nos anos 60, movimentou o samba carioca abrindo o restaurante e casa de shows Zicartola, que se tornaria aglutinador da melhor MPB. Ali se misturavam sambistas da Zona Norte, bossa-novistas da Zona Sul, poetas como Hermínio Bello de Carvalho, jornalistas como Sérgio Cabral e gênios como Paulinho da Viola – todos em começo de carreira.
Apesar da fama e após várias tentativas fracassadas, Cartola só entraria num estúdio de gravação para registrar seu disco-solo em 1974. O álbum, que trazia apenas seu nome na capa, foi lançado pelo selo Marcus Pereira e considerado o melhor da temporada pelos críticos. Nem o temido José Ramos Tinhorão desafinou o coro. ‘‘Esse disco que só a perspectiva histórica permitirá compreender a verdadeira importância, no futuro, é o primeiro long-play de um dos poucos verdadeiros gênios da música popular brasileira’’ – escreveu ele.
A glória tardia o fez lançar mais quatro discos – um deles ao vivo, registrando um show na Ópera Cabaré, em São Paulo. Combalido pelo câncer, Cartola morreria no dia 30 de novembro de 1980. De lá para cá, várias coletâneas póstumas de suas composições chegaram às lojas. A última delas saiu este ano pela coleção Raízes do Samba, da gravadora EMI.

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