HOMENAGEM AO GRANDE ARQUITETO
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segunda-feira, 15 de junho de 1998
Agência Folha e Redação 
Orlando BritoLúcio Costa, fotografado por Orlando Brito, para o livro Senhoras e SenhoresFui muito mais um homem do patrimônio do que da arquitetura. A frase do arquiteto Lúcio Costa, morto no último sábado, aos 96 anos, bem que poderia servir de mote para o longa-metragem que está sendo preparado sobre sua vida e obra. O filme, ainda em fase de captação de recursos, será produzido pelo diretor de fotografia Walter Carvalho e os produtores de cinema independentes Geraldo Motta e Artur Angel. Há alguns meses eles estavam colhendo imagens e depoimentos, tudo com o aval do arquiteto. Até o enterro de Costa, acontecido no último domingo, também foi registrado.
Desde que teve conhecimento do projeto o arquiteto se animou. Tanto que cedeu aos produtores o direito sobre os livros Uma Compilação de Sentido Autobiográfico, de 1993, e Lúcio Costa - Registro de uma Vivência, de 1995, e imagens captadas por ele próprio em super 8.
Acredito que ele se interessou por nosso trabalho porque era apaixonado por cinema. Ele chegou a nos dizer que, se não fosse arquiteto, teria sido cineasta, disse Geraldo Motta, que já tinha programado para esta semana filmar um depoimento de Costa.
O depoimento iria colocar fim a um jejum com a imprensa iniciado em 54, com a morte de sua mulher Julieta, em 1954, em um acidente de carro, no qual Costa estava na direção. Desde então, o arquiteto optou por uma vida reservada. De sua casa saía, até pouco tempo, para ir ao seu escritório, localizado no fim da Praia do Leblon, no Rio de Janeiro.
O filme, que deve se chamar O Risco, teve como inspiração o documentário que José Resnick fez de 1989 a 1992 sobre a trajetória do arquiteto, que foi um dos principais mestres da arquitetura moderna no Brasil. Lúcio Costa era um arquiteto que tinha visão de cineasta. Ele planejou Brasília em cinemascope (processo que reproduz imagens em grande dimensão). Sempre que se fala deste projeto lembra-se de Oscar Niemeyer, mas ele foi apenas o cenógrafo, disse o cineasta Bruno Barreto.
Brasília, realmente, foi uma de suas grande obras feita em dobradinha com Oscar Niemeyer. Os dois se conheceram no começo da década de 30 quando um certo estudante Oscar foi ao escritório do já profissional Lúcio Costa pedir para fazer uma espécie de estágio. Pedido aceito. Ficou lá durante um ano e meio.
Quase 30 anos depois, eis que o destino os colocaria juntos novamente na construção de Brasília. Em 57, num júri presidido por Niemeyer, foi escolhido o projeto urbanístico de Lúcio Costa. Entretanto, a projeção do ex-discípulo acabou por ofuscar o brilho do mestre. Tempos depois, Costa teria dito que Niemeyer havia desfigurado seu projeto e desancou críticas e mais críticas sobre Brasília. Mais tarde, entretanto, acabaria admitindo ser Oscar Nieymeier a grande alavanca da moderna arquitetura brasileira.
Filho de brasileiros - o pai era engenheiro naval comissionado, Lúcio Costa nasceu na França em 1902. Chegou ao Brasil
recém-nascido. Aqui permaneceu pouco tempo já que a família retornou para a França para mais seis anos. Na Europa, teve uma educação prodigiosa - estudou no College National, na Suíça, frequentou a Royal Grammar School, de Newcastle, na Inglaterra. Ao Rio de Janeiro, retornou de vez em 1916, onde viveu até sua morte.
Costa tinha como característica fundir a tradição e a modernidade. De sua prancheta nasceu, por exemplo, o prédio do Ministério da Educação, erguido com a ajuda de Charles Edouard Jeanneret, com a ajuda de outros cinco jovens arquitetos brasileiros. Pagos, como ele mesmo anotou, a um conto de réis cada um.


