Nelson Sato
de Londrina
Para muitos, poesia russa se resume a Maiakovski e ponto. É um universo ainda a ser desbravado pelos não-iniciados, embora há pelo menos três décadas circule uma antologia brasileira de autores russos organizada pelos irmãos Campos em parceria com Boris Schnaidermam.
A primeira edição saiu, salvo engano, em 1968 pela editora Civilização Brasileira. Depois, já na década de 80, a obra foi revisada e ampliada chegando ao público pela Brasiliense. Agora, a revista semestral Poesia Sempre pula da gráfica dedicando um número especial aos autores da terra do presidente enxuga-copos Boris Ieltsin.
A homenagem inclui uma antologia organizada por Marco Lucchesi (que também assina um texto introdutório e algumas traduções) e um ensaio de Regina Zilberman. Traz ainda uma seção ‘‘visual’’ de arte russa com reproduções de trabalhos de pintores como Kandinsky e Malevich. A compilação dos poetas abrange desde um autor anônimo do século XII até contemporâneos como Tzvetkov, Okudjava e Irtenyer passando obviamente por nomes mais conhecidos como Puchkin e Maiakovski.
No Brasil, Maiakovski roubou a atenção dos leitores deixando à sombra não só seus contemporâneos como toda a tradição poética de seu país. Seu nome ‘‘cresceu’’ tanto por aqui que, numa certa época, até versos alheios eram atribuídos à sua lavra. Quem não se lembra de um poema que começava mais ou menos assim: ‘‘no primeiro dia / eles pisam na grama / no segundo dia roubam as flores de seu jardim ...’’?
Pois não era de sua autoria, e sim de um obscuro poeta brasileiro que teve de conviver com a adulteração do crédito de seu poema em pôsteres, camisetas e panfletos estudantis. Recentemente, o governador do Estado Jaime Lerner voltou a incorrer no equívoco durante uma solenidade oficial recitando o texto com a autoria trocada.
Na revista, as traduções de Maiakovski - assim como as de Serguei Iessenin, Evgueni Ievtuchenko, Boris Pasternak, Marina Tzvetaeva, Ossip Mandelstam, Genadi Aigui e Aleksandr Blok - foram extraídas da já citada antologia pioneira feita pelos irmãos Campos e Boris Schnaiderman.
No ensaio de Regina Zilberman, Maiakovski é destacado como o autor mais influente da moderna poesia russa dedicando várias linhas a seus versos ‘‘afiados e precisos’’. Sua conclusão é de que a geração de ‘‘Maiáka’’ - a qual pertenceriam Sergei Iessenin, Ossip Mandelstam e Boris Pasternak - legou o equivalente na poesia ‘‘à Idade de Ouro da novelística russa da segunda metade do século XIX’’.
A revista, já no número 10, traz ainda uma seção de poesia brasileira contemporânea (Antonio Cícero, Donizete Galvão, Rosane Barcellos etc) e uma entrevista com 22 autoras que responderam às perguntas: ‘‘Qual a diferença entre a poesia de autoria masculina e feminina?’’ e ‘‘Como situa sua poesia frente à produção contemporânea?’’.
Entre as entrevistadas figuram as poetas Adélia Prado, Alice Ruiz, Hilda Hilst, Claudia Roquette-Pinto e Olga Savary. Poesia Sempre é editada pela Fundação Biblioteca Nacional. O endereço para correspondência é Av. Rio Branco, 219, Rio de Janeiro, RJ, CEP 20040-008. Tel. (21) 220-3040. Fax: 220-4173.Revista carioca chega ao número 10 reunindo versos de autores antigos e modernos como Lomonosov, Maiakovski e Ancharov
ReproduçãoRevista traz uma seção visual de arte russa como a tela ‘‘Três figuras’’, de Kazimir MalevichReproduçãoRevista ‘‘Poesia Sempre’’ é editada pela Fundação Biblioteca Nacional

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