Costuma-se dizer que o tempo anda passando muito rápido. Que o futuro está, a cada dia, mais presente. Daqui a pouco, diremos, o futuro já é passado. Será que já estamos vivendo o futuro? Será que aquele cenário sonhado por filmes como Matrix, existirá algum dia?
Imagine, por exemplo, um exército de clones humanos criados para executarem funções de risco, para o exercício da guerra, corridas espaciais ou pesquisas no fundo dos oceanos. Biologicamente mais fortes, mais resistentes, mais velozes, alterados, modificados geneticamente para serem, inclusive, mais inteligentes. Capazes de fazer qualquer conta de cabeça, de guardarem qualquer informação. Ou de cantar, dançar, escrever, pintar, desenhar e representar melhor do que qualquer um dos nossos artistas. Um super-homem, ou um monstro? Homem-máquina, ou máquina-homem? E mais. Que ética seria capaz de fazer a ciência refletir o desenvolvimento tecnológico? Que padrões de comportamento nos autoriza conceber tais criaturas que, pela natureza de sua criação, fogem justamente aos padrões estabelecidos como norma? Certamente não virá pela ciência uma auto-crítica tentando barrar os avanços das pesquisas tecnológicas. Não foi assim com a bomba atômica, não será assim com o projeto Genoma, por exemplo. Milhões de dólares estão em jogo e os governos precisam criar seus inimigos.
Hoje você já pode fazer operações que removem parte de seu corpo de um lugar para outro. Implantar um orgão biorrobótico no corpo e ativá-lo por impulsos nervosos. Trocar parte da pele do seu corpo por uma outra, sintética, modificando, inclusive, cor e textura. Misturar os genes de espécies diferentes.
Ficção, delírio, loucura, cinema, história em quadrinhos? Que nada, já estamos vivendo essa situação em que o homem, cada dia mais, altera os dados tanto de seu fenótipo quanto os genótipos das futuras gerações. Nossa condição não é só a de meras criaturas reprodutores da espécie, estamos começando a criar outras espécies, inventadas em laboratórios, experimentais, vivas e inteligentes.
Para o filósofo e crítico de arte Arlindo Machado, uma nova revolução da espécie já está em curso. Diz ele que ‘‘mutações fundamentais poderão inclusive alterar nosso código genético e reorientar o processo linear da evolução darwiniana’’.
Alguns artistas como Orlan, Sterlac ou Eduardo Kac já desenvolvem trabalhos que fazem interface com a biologia e a robótica a algum tempo. Orlan faz operações plásticas dentro de galerias de arte, alterando partes de seu rosto, acrescentando ou modificando formas, como enchimentos na testa, por exemplo, colocando em questionamento toda a estética de um rosto dito normal. Sterlac criou um braço robótico que funciona como um tentáculo, como se o membro artificial fizesse parte de seu próprio corpo. Eduardo Kac, que já implantou um microchip com um código de barras de identificação no próprio tornozelo, tem voltada suas atenções agora para os seres transgênicos. Por conta de suas pesquisas, um laboratório na França chegou a produzir, por encomenda, um coelho com olhos fosforescentes, resultado da adição de genes de uma alga que vive no Oceano Pacífico. Cientistas estão tentando bloquear a entrega do ser sintetizado e a briga já foi parar na justiça.
Ironia. Somos seres imperfeitos capazes de criar seres perfeitos. A máquina ocupou o lugar de Deus na crença humana. O caminho é incontornável.
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