Ranulfo Pedreiro
De Londrina
O redemoinho político que envolveu o cotidiano brasileiro após o golpe de 1964 guarda mais segredos do que insinuam os documentos que não foram destruídos pela própria repressão. No fundo dos porões ainda jazem mortes inexplicadas, torturas e delações. Uma parte importante desta história veio à tona com o livro ‘‘Eu, Cabo Anselmo’’, lançado pelo jornalista Percival de Souza.
Não se trata de especulação, mas de uma história digna de roteiro cinematográfico, narrada pelo protagonista. No olho do furacão, quando presidia a Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, José Anselmo dos Santos – o cabo Anselmo – liderou um movimento que ajudou a alavancar a Revolução. Nesta época, contava com o próprio Carlos Marighella – então um dos dirigentes do Partido Comunista – para escrever seus discursos.
Da presidência da Associação, Anselmo caiu na clandestinidade e foi parar em Cuba, onde fez um treinamento intensivo de guerrilha. De volta ao Brasil, participou de milícias armadas de esquerda até ser preso no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e, diante do delegado Sérgio Paranhos Fleury – o todo-poderoso da polícia política –, passou para o lado dos militares.
Como espião, Anselmo revelou informações vitais sobre as organizações de esquerda no País, driblou os rígidos esquemas de segurança de siglas como a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e chegou a montar um ‘‘aparelho’’ – como eram chamados os locais onde os militantes viviam e se organizavam – para a guerrilha com infra-estrutura cedida por Fleury.
Trabalhando para o Dops, onde morou por alguns meses, Anselmo chegou a viajar ao Chile para encontrar Onofre Pinto, um dos cabeças da VPR. Lá, sob suspeita de traição, arriscou o pescoço. Colocou sua arma sobre a mesa, ao alcance de Onofre, e autorizou o assassinato caso houvesse dúvidas de sua conduta como integrante da organização. Onofre engoliu a isca. Foi morto, tempos depois, quando entrava no Brasil, próximo a Medianeira (75 quilômetros a oeste de Cascavel).
As operações encabeçadas por Anselmo levantaram informações que provocaram a morte de seis pessoas importantes da VPR, fuziladas em Abreu e Lima, próximo a Recife. Entre os mortos estava Soledad Barret Viedma, que vivia com Anselmo, de quem estava grávida. O duro golpe desestabilizou a oposição ao regime militar.
Depois de conviver com situações estapafúrdias como agente do governo, Anselmo também quase foi morto pelo regime. Ainda hoje, o ex-cabo vive com identidade falsa, respaldada por uma cirurgia plástica que transformou seu rosto.
Toda essa história começou a ser desenterrada durante as pesquisas de Percival de Souza – autor de mais de dez livros e ganhador de três prêmios Esso de jornalismo –, para um livro sobre o delegado Fleury. Em algumas entrevistas, Percival descobriu que Anselmo estava vivo, morava no Brasil, e talvez estivesse disposto a falar.
Uma série de normas de segurança tiveram que ser observadas. Percival de Souza – que é colunista da Folha de Londrina/Folha do Paraná – se inspirou em Truman Capote para colher o máximo de informações sobre Anselmo. Ambos viajaram ao Nordeste para a tomada de depoimentos. Lá, o ex-cabo visitou sua cidade natal, Itaporanga D’Ajuda, a 26 quilômetros de Aracaju, onde foi reconhecido por amigos e familiares.
Nesta viagem, Anselmo também visitou o sítio de Abreu e Lima, município Pernambucano onde os membros da VPR foram assassinados. A descoberta do sítio é outro mérito de Percival. Citado em documentos apenas como ‘‘Recife’’, ou ‘‘Paulista’’, a localização era até então incerta.
Em Abreu e Lima o próprio Anselmo quase foi executado pelo comando da VPR por suspeita de traição. A reunião dos militantes no sítio tinha essa finalidade. Só que Anselmo escapou da armada com a ajuda de outro agente do Dops. A casa foi cercada e fuzilada.
‘‘Eu, Cabo Anselmo’’, é um depoimento de um homem que tenta se explicar. A argumentação se dilui por divagações filosóficas, conceitos e revelação de detalhes da vida como militante da guerrilha de esquerda. Na clandestinidade, os opositores ao regime viviam sob regras rígidas de segurança e se opunham a qualquer atitude que revelasse um ‘‘decadente pensamento burguês’’. Anselmo revela que a simples comemoração de um aniversário, por mais discreta, levantava suspeitas.
A vida na clandestinidade envolvia obedecer ordens que chegavam não se sabe de onde e confiar em pessoas desconhecidas. Quando não estava em missão, o militante deveria permanecer na rua e voltar para o ‘‘aparelho’’ até um horário pré-determinado. Todas essas normas – e muitas outras – foram colocadas por Anselmo como fatores importantes para a sua conversão ao delegado Fleury.
Sob a experiente narrativa de Percival, os fatos históricos surgem com clareza. O jornalista buscou a isenção, ao contrário de outros trabalhos sobre a ditadura. Anselmo optou pela linguagem jornalística para evitar distorções, julgamentos, rancores ou qualquer sentimento que pudesse atrapalhar a compreensão dos fatos narrados pelo ex-cabo.
As pesquisas de Percival de Souza resultaram, além do livro, em uma matéria de 18 páginas na revista ‘‘Época’’ e uma reportagem especial no ‘‘Fantástico’’. ‘‘Eu, Cabo Anselmo’’ saiu com 262 páginas pela Editora Globo.
No dia do lançamento do livro, uma surpresa. O ambiente reuniu ex-agentes da repressão, marinheiros contemporâneos de Anselmo na Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, ex-guerrilheiros e representantes de militares que, discretamente, adquiriram a obra.
Anselmo vive hoje com outro nome, em algum canto do Brasil, onde possui amigos. O ex-militante já mudou várias vezes de identidade, pois as mentiras que encobrem seu passado vão, com o tempo, se deteriorando, provocando a desconfiança nas pessoas. Então ele é obrigado a mudar novamente, de local e identidade, e começar tudo de novo. Admirador do delegado Fleury, Anselmo é um clandestino que teme pela própria segurança em plena democracia brasileira.
Terminada a saga de Anselmo, Percival continua a iluminar os porões do regime militar. A mira se volta para o alvo original, Sérgio Paranhos Fleury, uma pesquisa que ficou inacabada pela aparição do Cabo Anselmo. O livro sobre o peso-pesado da repressão política no Brasil promete trazer à tona ainda mais detalhes sobre o esquema do Dops e a guerra travada com a esquerda.
A obra está com o lançamento programado para o segundo semestre e ganhou a dedicação total do jornalista. Percival de Souza está escrevendo diariamente e, para completar o trabalho, conta com apenas mais cinco depoimentos que já estão sendo agendados. Neste novo trabalho, Percival promete abrir ainda mais a caixa de Pandora de um trecho ainda desconhecido da história brasileira.
Leia mais sobre o cabo Anselmo na página 3Em ‘‘Eu, Cabo Anselmo’’, o jornalista Percival de Souza traz à tona histórias de um dos mais controvertidos personagens da ditadura militar
ReproduçãoCabo Anselmo, na época em que presidia a Associação de Marinheiros e fuzileiros Navais do Brasil: de guerrilheiro a espião e delator durante a repressãoReproduçãoFoto recente de Anselmo que vive ‘‘em algum canto do País’’

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