Hollywood revive sua noite de glória
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de março de 1998
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, entre recomposta, aliviada e agradecida, informa uma providencial substituição: ao som plangente de Céline Dion, entra Titanic no lugar de O Paciente Inglês. Isto significa que, passado o susto, os grandes estúdios estão de volta ao brilho das luzes e às circunstâncias das pompas. Ano passado momentaneamente varridos da disputa do mais incensado troféu do planeta, eles mostraram fôlego e vitalidade, ainda uma vez dando as cartas depois do merecido baque proporcionado pelos independentes.
Que felizmente, diga-se, também continuam vivíssimos. Amanhã no Shrine Auditorium, em Los Angeles, a partir das 18 horas (23 horas, horário de Brasília), a farta e óbvia recompensa desta retomada de controle pelas major começa a ser distribuída numa festa como sempre longa, entediante, burocrática e - por que não ? - glamourosa, que terá como testemunhas cerca de um bilhão de espectadores.
Agora já não há mais dúvidas sobre o que o diretor James Cameron andava buscando no fundo do mar quando fez O Segredo do Abismo, caríssima ficção científica que curiosamente naufragou nas bilheterias, em 1989. Agora com justiça alçado à condição de benemérito número um da indústria cinematográfica americana, (e com certeza idolatrado pelos exibidores do mundo inteiro), Cameron merece cada centavo que seu Titanic continua a arrecadar - segundo o escritório da Fox em São Paulo, até meados desta semana, no Brasil, a renda já havia ultrapassado a casa dos US$ 50 milhões, para um total mundo afora de um bilhão, duzentos e trinta e dois milhões de dólares. Por tudo isso, os Oscars de direção e de melhor filme parecem muito próximos.
É difícil, mas pode acontecer. De favorito absoluto, Titanic se transformar em azarão e ganhar apenas, digamos, metade das 14 estatuetas para as quais está indicado. Talvez temendo demonstrar gratidão em excesso, quem sabe a Academia possa eventualmente prestigiar um dos melhores filmes do ano, L. A. Confidential , no Brasil Los Angeles, Cidade Proibida.
O problema é que o belo filme de Curtis Hanson não rendeu o equivalente ao custo de meia dúzia de camarotes do Titanic. Quem também briga por um lugar ao Sol é esta amável comédia, Melhor é Impossível, onde Jack Nicholson prova que é capaz de repetir-se indefinidamente sem que isso represente perda de qualidade. Só por esta incrível capacidade de interpretar a si mesmo sem levantar suspeitas o ator merecia o Oscar da categoria.
E mais uma vez Hollywood reza pela cartilha da contradição, para alguns puro nonsense: Melhor é Impossível concorre na categoria de melhor filme, mas seu diretor, James L. Brooks, ficou de fora. Quer dizer, ganhando não houve méritos de direção...
Honrando os independentes via Miramax, a responsável por O Paciente Inglês, Gênio Indomável tem chances matematicamente relativas - pode levar roteiro original, assinado pela jovem dupla de atores do filme, Ben Affleck e Matt Damon (um DiCaprio depois de aplicadas sessões de malhação), e até dar um prêmio aos esforços de Robin Williams em deixar de ser sempre engraçado. Por sua vez, o irregular diretor Gus Van Sant não é o que se poderia chamar de queridinho de seus pares, com uma filmografia um tanto fora dos padrões morais e artísticos dos colegas diretores com direito a voto.
Com certeza são os ingleses da produção Ou Tudo ou Nada, comédia seminua de costumes, de custo irrisório e lucros cada vez maiores - superou a bilheteria de Jurassic Park na Inglaterra, e vem fazendo boa carreira por onde passa, inclusive no Brasil. Peter Cattaneo, seu diretor estreante, também não deixou por menos e recebeu a nominação que seria destinada a Steven Spielberg, caso Amistad fosse um pouquinho menos liberal para o paladar ianque. Não devem levar, mas deixam a certeza de um cinema britânico original e revigorado.
E finalmente, quem recebeu uma indicação surpreendente foi o diretor Atom Egoyan, canadense de origem armênia. Cult em festivais europeus - portanto circulando nas antípodas do Oscar -, Egoyan foi nominado por O Doce Amanhã, já premiado pela melhor direção ano passado em Cannes. Suas chances são mínimas, menos pela singular e solitária nominação do cineasta do que pela complexidade literária do argumento do filme.
A tradicional família Fonda está de volta ao circuito dos prêmios. O ex-easy rider Peter Fonda pode levar o Oscar como o apicultor de Ulees Gold, segundo quem já viu um trabalho sério. Robert Duvall é como Gene Hackman: sempre corre bem por fora, agora no papel de um pregador em O Apóstolo, dirigido pelo próprio.
Um azarão a apostar é Matt Damon, de Gênio Indomável, embora Dustin Hoffman entre no páreo num papel que é de pleno agrado da Academia - o inventor de guerras como tática diversionista para salvar a imagem e o cargo do presidente americano, ameaçados pela opinião pública. O filme é Wag the Dog, e tem tudo a ver com o momento na Casa Branca.
Entre os coadjuvantes, nenhum franco favorito. Pode dar Burt Reynolds, que já levou o Globo de Ouro por Boogie Nights. Ou Anthony Hopkins, para amenizar o desprezo da Academia a Amistad. Entre as mulheres, quatro inglesas versus uma americana que ainda tem muito a aprender. Helen Hunt, de Melhor é Impossível, tem pela frente Kate Winslet (Titanic), que também deve ficar na lista de espera; Julie Christie (Afterglow), voltando em grande forma; Helena Bonham Carter (The Wings of The Dove), com muitas chances, e Judy Dench (Mrs. Brown), que não deve emplacar.
Entre as coadjuvantes, a disputa vai se restringir a Kim Bassinger e Gloria Stuart. A femme fatale de Kim em L. A. Confidential, inspirada nos personagens noir de Veronica Lake e Lauren Bacall, é o melhor papel da carreira dela. Mas o mundo em lágrimas vai torcer pela velhinha sapeca de Titanic e, como se sabe, a Academia adora chorar junto.
Como acontece habitualmente, cinco produções disputam o Oscar de melhor filme estrangeiro. Além do concorrente brasileiro, foram nominados o espanhol Segredos do Coração, o russo O Ladrão, o holandês Personagem e o alemão Além do Silêncio. Goste-se ou não de O Que é Isso, Companheiro?, o filme de Bruno Barreto que briga na categoria, é preciso ter em conta as consequências que um prêmio com tal significado representa, neste exato momento do cinema brasileiro. Depois dos Ursos em Berlim para Central do Brasil, sair de Hollywood com a estatueta vai ser no mínimo estimulante.
O processo de retomada precisa de leis de incentivos, patrocínios, recursos; mas tudo isso torna-se mais fácil se houver premiações, reconhecimento internacional, convites de festivais de prestígio, boa acolhida crítica, resenhas simpáticas à nova fase de produção. Sem contar, é claro, o orgulho nacional. Daqui a três meses na França, como em todas as Copas e apesar de tudo, a seleção distante vai ser a pátria de chuteiras. Para variar um pouco, que tal amanhã à noite transformar O Que é Isso Companheiro ? na pátria em celulóide ?


