Hollywood aposta em ''Brasil 1500''
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segunda-feira, 30 de junho de 1997
Fernando Oliva Agência Folha 
Um filme sobre as razões e consequências do Descobrimento do Brasil dirigido e co-produzido por norte-americanos. Apesar de escrito por um brasileiro, o roteiro de Brasil 1500 foi finalizado por David Newman (Superman - O Filme) e deve ser dirigido por Michael Cimino (O Franco-Atirador e O Ano do Dragão), com produção de Ilya Salkind e Jane Chaplin (Os Três Mosqueteiros, O Príncipe e o Mendigo).
O paulistano Fábio Fonseca, empresário da área de frigoríficos, teve a idéia de realizar a superprodução há quatro anos. Com a cara de pau de quem nunca havia escrito profissionalmente, levou seu esboço de roteiro a Hollywood, pagou pela opinião dos screendoctors (profissionais que apreciam roteiros para os grandes estúdios) e, por fim, conseguiu uma co-produção com a Scent Film, empresa de Salkind (produtor dos três primeiros Superman) e Jane (filha caçula de Charles Chaplin). De acordo com o agora roteirista, o filme pretende retratar os antecedentes e as consequências do ocorrido em Santa Cruz de Cabrália (BA) a 21 de abril do ano de 1500 - local, dia, mês e ano oficiais do desembarque de Pedro Álvares Cabral em terras brasileiras. Quem conta a aventura marítima do descobrimento é o marujo Gonçalo, identificado apenas como um dos tripulantes da nau-capitânia da frota de Cabral. A intenção é colocar o espanhol Antonio Banderas na pele do marujo desbravador. O elenco de apoio deve ser composto totalmente por brasileiros.
Já que a célebre saga dos portugueses é narrada por um personagem anônimo e fictício, a pergunta óbvia é: onde entra Pedro Álvares Cabral na história? Em Brasil 1500, o famoso capitão português é uma personagem secundária. Fonseca e o co-produtor brasileiro Cláudio Kahns não queriam limitar as possibilidades de inovações do roteiro, sempre em comparação com a história oficial. Não precisamos nos ater aos clichês que envolvem a figura histórica de Cabral, justifica Kahns.
IntencionalidadeFonseca, após pesquisar durante um ano em arquivos portugueses (Ministério da Marinha) e brasileiros (Biblioteca Mário de Andrade e Casa de Portugal, em São Paulo, e Gabinete Português de Leitura, no Rio), encampou a tese da intencionalidade do Descobrimento. Ele se opõe, assim, à bastante divulgada versão que crê no desembarque das naus portuguesas no litoral baiano como um acidente de percurso. A principal idéia que o filme defende é que tudo foi muito bem planejado por Portugal e que havia uma política nacional para colonizar o país. Como a pretensão é fazer sucesso entre o público norte-americano e conquistar o mercado internacional, o nome do roteirista David Newman surgiu como outro trunfo da produção para aumentar a credibilidade do projeto (leia entrevista nesta página).
Newman entregou o roteiro final de Brasil 1500 na semana passada.
Ele foi contratado para dar um polimento no texto, explica Fonseca.
Os investidores precisam conhecer quem está por trás, e é mais fácil vender um projeto associado ao nome David Newman que ao de Fábio Fonseca.
O filme deve ser dirigido pelo norte-americano Michael Cimino, que ganhou o Oscar em 78 pela direção de O Franco-Atirador. Só falta assinar o contrato, assinala Fonseca. Para países diferentes, estratégias diferenciadas para conquista de mercado e de público. Nos Estados Unidos, o filme deve estrear com o nome de Gonçalo. A produção está orçada em US$ 35 milhões. Como termo de comparação, o épico brasileiro A Guerra de Canudos custou R$ 6 milhões. Kahns, da Tatu Filmes (Como Nascem os Anjos), já arrecadou cerca de R$ 7 milhões por meio da Lei do Audiovisual. A procura de investidores internacionais pela Scent Film ainda está no começo. Como Brasil 1500 é um dos projetos aprovados pela Comissão Nacional para as Comemorações do 5º Centenário do Descobrimento, o filme pode usar esta espécie de chancela do governo federal para captar mais recursos no País. Desde fevereiro, Fábio Fonseca bateu à porta de 129 empresas. As filmagens devem acontecer em janeiro e fevereiro de 98, com locações em Porto Seguro (litoral sul da Bahia) e Portugal e internas em estúdios hollywoodianos. Os produtores tentam assinar contrato com Warner, Paramount ou Disney. A intenção é lançar o filme em julho, em pleno verão americano, diz Fonseca. Se não ficar pronto até lá, Brasil 1500 - ou melhor,Gonçalo - só chega às telas em 1999, durante o próximo verão, estação estratégica para lançamento nos EUA das grandes produções de entretenimento.


