Holanda tira novamente o prêmio do Brasil
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terça-feira, 24 de março de 1998
Guto Barra Planet Pop/AE 
Bruno Barreto, diretor de O Que é Isso, Companheiro? entre
as estatuetas: Brasil fica sem o Oscar mas ganha prestígioDuas horas e quarenta minutos de premiações haviam passado quando Sharon Stone anunciou o vencedor da categoria de melhor filme de língua não-inglesa. Caráter, do diretor holandês Mike van Diem, adiou o sonho brasileiro de levar um Oscar para casa. O Que é Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto, deu lugar à história familiar sobre um jovem e respeitável advogado que é preso por matar um dos mais famosos oficiais de Justiça de sua cidade.
Caráter, baseado na obra Karakter, de F. Bordewijk, é a terceira conquista da Holanda na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. É também a segunda vez que o país disputa a vaga com o Brasil: em 1996, o filme A Excêntrica Família de Antônia derrotou O Quatrilho, de Fábio Barreto.
Embora o Companheiro tivesse boas chances de levar a estatueta por conta de boas críticas nos Estados Unidos e de sua exibição em grande circuito comercial no país, Caráter também era considerado bem cotado por conta de seu clima emocional cercando relações familiares. A história esquenta quando a polícia descobre que o suspeito do crime é, na verdade, filho da vítima. As investigações traçam a sequência de eventos que levam ao crime e descobre-se uma série de detalhes sobre uma vida cheia de mentiras, traição e ressentimento, marcada também por um romance fadado ao fracasso.
O filme já havia ganhado o prêmio do público no Festival Internacional do Filme de Cannes, na França, em maio do ano passado, mas foi só com a indicação ao Oscar que começou a ganhar atenção no mercado internacional. A Academia salvou minha vida, disse o diretor estreante no simpósio dos diretores estrangeiros, organizado pela instituição no sábado, em Los Angeles. Mesmo depois do festival de Cannes ficamos nove meses sem ter distribuidor nos Estados Unidos, disse Van Diem. O filme, que teve seus direitos comprados pela Sony Pictures, estréia esta semana no mercado norte-americano.
A expectativa em relação à premiação fez com que a equipe brasileira se sentisse pressionada. Fernanda Torres, que chegou em Los Angeles no sábado, disse que não pensou no Oscar em nenhum momento. Fiquei com medo do que foi se criando em torno dessa disputa, disse a atriz à Planet Pop. Ao mesmo tempo que sentimos que o público está acreditando no cinema brasileiro e ele passou a ser uma coisa que as pessoas podem gostar e torcer, foi sendo criada uma expectativa que fiquei com medo de errar perante os outros.
Sobre o crescimento do cinema brasileiro no mercado internacional, Fernanda acha que a solução é o aumento do número de produções. Não basta ter um ator batendo de porta em porta nos estúdios, é preciso ter uma série de bons filmes sendo produzidos, disse. Temos de ter vários Pixotes, vários Companheiros e Centrais do Brasil.
As seis semanas que se passaram entre a divulgação dos indicados para o Oscar e a cerimônia renderam bastante para a produção nacional. O filme recebeu um número impressionante de boas críticas nos principais veículos norte-americanos e ganhou a aprovação do público (75% das pessoas afirmaram ter gostado muito da produção em uma pesquisa realizada pela Miramax). Acho que estamos em um momento de maior atenção para o cinema internacional, o mercado de Hollywood está mais interessado no que está acontecendo em diferentes lugares do mundo, disse Lucy Barreto, que produziu o Companheiro.
Para Bruno, as chances da produção brasileira no mercado internacional são boas. Acho que o cinema nacional pode ganhar muito mais destaque do que a música no mercado internacional, diz o diretor. Um filme, quando emplaca, se transforma em um fenômeno de massa muito grande, a música brasileira no exterior é uma coisa cult. O Caetano Veloso faz sucesso no Carnegie Hall, mas suas músicas não tocam no Michigan. O Companheiro está sendo visto em 50 cidades nos Estados Unidos, além da Itália, da Espanha e da Inglaterra. A elite dirigente do Brasil e o governo são muito desinformados, ainda vai demorar muito para as pessoas entenderem a dimensão disso.


