Hoje a cinefilia parece um vício sexual
Meus Deus, que saudade do cinema! Que saudade do universo alado que ele encerrava, que saudades do sonho, da utopia fílmica dos anos 50 e 60, alimentada pelo Cahiers du Cinema e pelos círculos de fumaça dos Gitanes sem filtro. Atualmente, a cinefilia soa como um vício sexual. Talvez tenha sido. Há um mundo secreto, próprio do cinema, que só alguns ainda conhecem. Hoje o cinema é nu. Está exposto nas lojas, feiras e bancas de jornais em forma de vídeo, está nos hotéis, na ponta dos dedos dos insones, está nas TVs, está rodando bolsinha nas ruas. Ahh, que é isso, cara? Isso é bom para o cinema, aumenta a difusão de filmes, mercado etc e tal!, dizem.
Não acho. Sou contra. Tenho saudades da sala escura, do cinema segredo, o cinema tesouro, o cinema dos pobres tímidos, o cinema como uma ilusão, punheta dos rapazes feios, o cinema como realidade alternativa, que analisávamos noite adentro nos bares. Ahh... como era bom esperar um filme do Fellini, a cada ano, e o novo Antonioni, e o novo Godard... Não chego a ser um cinéfilo puro. Falta-me o gosto arquivista, o detalhe das fichas técnicas remotas, o mundo das fofocas de Hollywood. Mas, tenho amigos que me calam de respeito. Às vezes tento folgar mas, em geral, danço...
Cinéfilo era o Manuel Puig. Li, outro dia, que Puig estava morrendo em Cuernavaca. Uma de suas filhas Yasmin, (uma bicha filha dele com o Ali Khan, pois Puig se imaginava Rita Hayworth), chorava à beira do leito achando que Puig já entrara em coma. Mas, na esperança testou os sinais vitais de sua mãe. Falou-lhe: Mãe..., ontem eu vi Stella Dallas do King Vidor... chorei muito... A mãe Puig balbuciou do leito: É... a Barbara Stanwick está bem... mas o John Boles nunca me emocionou... Yasmin, a bicha cinéfila, caiu em prantos de felicidade: Mamãe está viva!
Outro gênio que não dá para conversar sem ser humilhado é Walter Lima Jr, que acaba de fazer uma obra-prima do cinema mundial A Ostra e o Vento. Walter, aluno do grande Antonio Moniz Vianna, nosso radical defensor do verdadeiro cinema. Tenho saudade deste amor. Vocês sabem do que falo, não é Nildo Parente, Sérgio Augusto, Perdigão, saudades deste mundo preto-e- branco, entre fios de fumaça de cigarros franceses. Buscávamos uma utopia: o específico fílmico.
Cinema pós-moderno Pois em busca desta saudade, entro no videoclube. Nas estantes, carregadas Bruce Willis, Chuck Norris, Richard Gere brilhava num canto o Johnny Guitar do grande Nichols Ray. Está sendo alugado como água, me diz o videolocador, com uma cara que (oh alegria!) me pareceu da minha confraria secreta. Magro, fumando muito, barba por fazer e um olhar meio desesperado, me pareceu um cinéfilo. Esse Johnny Guitar é o filme que mais revela a estrutura íntima da grande narrativa americana, arrisquei, na busca de um confrade. O rapaz me olhou meio perplexo e botou o vídeo no saquinho de plástico. Eu continuei, doido por um papo. Há filmes geniais que você não tem aí. Manda vir: Kiss me Deadly do Aldrich, Naked Kiss do Fuller, conhece? Não? Cara, é genial, a abertura do filme, a mulher matando o cara com o salto do sapato, é do cacete!... O rapaz me ouvia, com olhar triste, pálido. Animado, continueu: Estes filmes mostram que só a ignorância total dos produtores americanos, sem nenhuma tradição teatral européia culta, podia criar uma linguagem nova, sem metáforas babacas. Enquanto a Europa fazia o cubismo, Hollywood inventava o cinema de ação. É por isso que acho que o cinema já nasceu pós-moderno... ah... ah...
O cara me olhava numa boa, assentindo com a cabeça... Fumava muito. Continuei: O cineasta Sganzerla disse uma vez que enquanto na literatura as personagens fugiam de um problema, no cinema elas fogem do decor. É isso aí. Cinema é o que se passa dentro do plano, a ação entre as pessoas e as coisas. Há uma fisicalidade no cinema em que as coisas brilham antes do enredo. Há uma superficialidade profunda no cinema básico que os grandes mestres sacaram. Nicholas Ray neste filme eleva a velha dualidade de bandidos e mocinhos num maniqueísmo metafísico meio épico, shakespeareano. E sempre trabalhando com o óbvio. No cinema, o tipo é mais profundo que a personagem. Há filmes em que quanto mais óbvio a interpretação dos atores, mais funda vai sua significação.
Sangue vermelho Notei que a palidez do videolocador aumentara mas, como não havia outros clientes, ele teve de me encarar, impávido. Não tive pena, continueu a alugar o alugador de acabaxis. É interessante que no cinema europeu o sentido da cena nunca está na cena mesma, mas em algo que ela sugere, que estaria fora, longe, mais além. Só Godard, ensinando pelos americanos, acabou com esta frescura, se bem que fazendo uma paródia do óbvio, criando um metacinema. Num filme dele, falaram Tem muito sangue na cara da atriz. Ele disse: Não é sangue; é vermelho...(Cest du rouge...) Em Nick Ray também. Como em Fritz Lang, você viu Spies, de 1919? Não? Pois nos grandes físicos do cinema como Dreyer em Ordet ou em Fuller em The Big Red One, a imagem não sugere nada fora. Está tudo dentro, como nas pedras.
O rapaz do videoclube olhava ansioso para a porta, em busca de salvação. Mas, eu não tive pena: No grande cinema não há lugar para a alusão do sentido. Não há a sugestão da névoa. Os objetos atingem grande concentração molecular. Não há símbolos; há ícones. Não há ideal a atingir; há um ensinamento da nossa finitude, há uma crua descrição do mundo, uma imanência sem perdão. No verdadeiro cinema, meu companheiro, uma coisa não se soma à outra para formar uma terceira. Não há todo; só partes. Se entendermos isso, ficaremos tão sábios quanto os caubóis neste mundo neoliberal: quietos, calados e valentes, prontos para atirar.
Foi aí que me calei. O videlocador me olhou então com uma certa malignidade. Com um sorriso, puxou dois vídeos novos. Leva esses aqui. São novos lançamentos: Comando Delta 3 e Robocop 7 - A Vingança.
Saí com meu Johnny Guitar no saquinho, mas minha fome de cinéfilo nostálgico estava satisfeita.





