HITCHCOCK o mestre do medo
Celso Mattos
De Londrina
O suspense não é a manipulação de material violento, mas sim a dilatação de um período de tempo, a ênfase que faz o coração bater mais depressa. Era assim que Alfred Hitchcock definia o gênero cinematográfico que o consagrou como mestre. Foi este sujeito baixinho, gordo, de fala mansa e ar contagiante de tranquilidade que criou pérolas do suspense como Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai, Psicose, Os Pássaros, O Homem que Sabia Demais e uma lista com cerca de 50 filmes que entrou para a história do cinema, mostrando que não é preciso sangue e nem violência para manter a platéia de olhos abertos.
Abordando temas sombrios com brilhante estilo visual, chegou a filmes tão enredantes, tão cheios de entretenimento que o espectador até se esquece que está diante de uma obra de arte. Talentoso contador de histórias, conseguiu gerar permanente tensão na tela ao colocar nela gente comum em circunstâncias extraordinárias. O essencial é emocionar o público e a emoção nasce da maneira pela qual se justapõe as sequências, disse ele ao ser entrevistado pelo amigo François Truffaut.
Em 1995, para comemorar os 100 anos da invenção do cinema, a revista Time Out perguntou a 100 diretores de todo o mundo quem era o cineasta mais importante da história do cinema. Errou quem acha que foi David W. Griffith, Sergei Eisenstein ou Orson Wells. O escolhido, com mais de 60% dos votos foi Alfred Hitchcock. Ao optar pelo cinema, manipular o medo dos espectadores tornou-se para ele uma obsessão. Não admira que, por meio do suspense, tenha elevado o medo à condição de uma das mais belas artes.
Tornou-se uma das personalidades mais conhecidas do cinema por sua mania de aparecer, mesmo que fugazmente, nos filmes que dirigiu. Nunca foi difícil reconhecê-lo: a silhueta gorda e realçada pelo terno sempre impecável. Ao morrer, em 29 de abril de 1980, Hitchcock quis que, ao contrário, seu corpo fosse escondido. As pessoas presentes na cerimônia fúnebre não viram sequer seu caixão. Uma coisa ajuda a explicar a outra. Num mundo onde tudo é signo, o aparente e o secreto caminham juntos. O homem que gostava de exibir-se publicamente quis permancer secreto na morte.
Nascido no subúrbio londrino de Leytonstone, a 10 quilômetros de Londres, Alfred Hitchcock se mudou para os Estados Unidos em 1939, ao ser convidado pelo produtor David O. Selznick. A essa altura, o cineasta já tinha no currículo 24 filmes. Sua estréia na América não poderia ser melhor: Rebecca, a Mulher Inesquecível levou o Oscar de Melhor Filme. Embora tenha sido indicado quatro vezes ao Oscar de Melhor Diretor, jamais foi premiado. Nunca escondeu seu ressentimento por ter sido continuamente ignorado pela Academia. Quando finalmente a Academia lhe deu o Oscar Honorário, uma espécie de prêmio de consolação pelo conjunto de sua obra, ele foi bastante mordaz ao fazer - depois de espetaculares aplausos - o mais breve discurso em toda a história do Oscar: disse apenas Obrigado e saiu imediatamente.
Os críticos da época não viam seus filmes com bons olhos. André Bazin, por exemplo, considerava-o frio e artificial. Quem sempre vinha em sua defesa era François Truffaut, seu maior admirador. Em 1966, o cineasta francês fez a seguinte previsão: até o final do século, haverá mais livros sobre Hitchcock do que sobre Marcel Proust. Não foi preciso esperar tanto. Hitchcock já é mais estudado, analisado e virado do avesso do que Proust - os volumes sobre sobre ele abarrotam as prateleiras das livrarias. Na verdade, Hitch se considerava um artesão, um contador de histórias. Meus filmes são sonhos acordados, dizia o mestre. Ele foi um diretor que sempre priveligiou as imagens. Um cineasta não deve dizer as coisas, mas mostrá-las, argumentava.
O mestre afirmava que 95% do sucesso de um filme dependia da direção e que atores deveriam ser tratados como gado. Ele é o maior caubói que eu conheço, dizia James Stewart, que trabalhou com o diretor em dois clássicos, Um Corpo que Cai e Janela Indiscreta. Para aqueles como Paul Newman em Cortina Rasgada, que teimava em utilizar um método de interpretação, Hitchcock avisava: Faça o que quiser. Há sempre a sala de edição. Às vezes, o cineasta conseguia ser cruel. Durante um teste, uma atriz iniciante perguntou qual era seu melhor perfil. Querida, você está sentada em cima dele, respondeu o diretor.
Alguns diziam que Hitch era um sujeito comum e que, por acaso, era um gênio. Outros, que sua personalidade era multifacetada. Sempre haverá um Hitchcock público e meticuloso, e também o homem tímido e doméstico que adorava jardinagem, animais e família - foi casado com Alma Reville por 53 anos, com quem teve uma filha, nascida em 1928. No íntimo, ele sabia que era uma pessoa complicada, mas nunca se preocupou em buscar uma resposta para o seu próprio enigma. Assim, quando seu coração parou de bater, na manhã de 29 de abril de 1980, aos 80 anos, o mestre do suspense deixou seu melhor filme em aberto: a verdadeira história de sua vida.





