Histórias sombrias das ditaduras
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Nelson Sato <br>Reportagem Local 
Uma sinistra cooperação político-militar uniu as ditaduras da América do Sul ao longo da década de 70. Chamada de ''Operação Condor'', a aliança partiu da troca de informações para uma sistemática perseguição aos opositores dos regimes autoritários da região.
O Brasil não ficou de fora das ações, que foram negadas durante anos pelos generais até vir a público a partir do estabelecimento da democracia no continente. O documentário ''Condor'', que será exibido hoje pelo Canal Brasil, conta essa passagem nebulosa da história. A atração vai ao ar às 21 horas no programa ''É Tudo Verdade''.
O filme, escrito e dirigido por Roberto Mader, conquistou em 2007 o troféu de melhor documentário no Festival do Rio e o Prêmio Especial do Júri em Gramado. O cineasta percorreu países sul-americanos e europeus em busca de registros e testemunhos sobre a conexão que envolveu os serviços de inteligência de Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai.
Nos anos 80, o Peru, já sob uma ditadura militar, também juntou-se ao grupo. Contando com rico material de arquivo, a produção apresenta diferentes versões sobre os acontecimentos da época reunindo depoimentos de militares, ativistas políticos, torturadores, vítimas e parentes de crianças desaparecidas.
Estabelecida formalmente em 1975, a ''Operação'' apagou as fronteiras nacionais entre seus signatários, que se articularam para localizar, sequestrar, transportar e assassinar militantes ''de esquerda'' - tudo à margem da lei. O nome do acordo era uma alusão ao condor, ave típica dos Andes, extremamente sagaz na caça às suas presas.
De acordo com os pesquisadores, a aliança teve três fases. A primeira consistiu na troca de informações entre os países-membros. A segunda caracterizou-se pelas trocas e execuções de adversários políticos nos territórios dos países que formavam o pacto. A terceira fase ficou marcada pela perseguição e assassinato de inimigos políticos no exterior - muitas vezes no próprio exílio.
Calcula-se que, apenas nos anos 1970, o número de mortos e ''desaparecidos'' políticos tenha chegado a aproximadamente 290 no Uruguai, 360 no Brasil, 2 mil no Paraguai, 3.100 no Chile e impressionantes 30 mil na Argentina - a ditadura latino-americana que mais vítimas deixou em seu caminho. Estimativas menos conservadores dão conta de que a Operação Condor teria chegado ao saldo total de 50 mil mortos, 30 mil desaparecidos e 400 mil presos.
Sabe-se que o Exército brasileiro prendeu militantes montoneros (Uruguai) e de outras organizações da extrema-esquerda latino-americana e os entregou aos militares argentinos. Um caso emblemático do período foi o episódio envolvendo o sequestro de uruguaios em Porto Alegre, em 1978, quando militares daquele país atravessaram a fronteira com o Brasil - com a anuência do governo brasileiro - para sequestrar um casal de militantes de oposição ao governo uruguaio que estavam na capital gaúcha.
A operação teria sido um sucesso - como tantas outras - não fosse o fato de dois jornalistas brasileiros (o repórter Luiz Cláudio Cunha e o prematuramente falecido fotógrafo J. B. Scalco), após serem alertados por um telefonema anônimo, terem ido até o apartamento onde o casal morava. O envolvimento dos jornalistas acabou revelando a ação conjunta do Uruguai e do Brasil - e repercutindo internacionalmente o episódio.
Em 1991, o governo gaúcho indenizou as vítimas daquela ação militar. No ano seguinte, o Uruguai também tomou a decisão de reparar os sequestrados. Essa história foi relatada numa premiada reportagem da revista Veja e num livro de autoria de Luiz Cláudio Cunha.
O documentário reconstitui a ''Operação'', mas avança para fornecer uma perspectiva atual trazendo um balanço sobre o trabalho da justiça nos países envolvidos. Uma oportunidade para constatar que no Brasil, por exemplo, os responsáveis nunca foram punidos.
Serviço
Documentário ''Condor'' - Programa É Tudo Verdade
Quando - hoje às 21h
Onde - Canal Brasil


