Atualmente o Brasil tem pouco mais de 200 povos indígenas que falam cerca de 170 línguas. Parece muito, mas é pouco se comparado aos números de 500 anos atrás. Mesmo assim não é difícil imaginar a quantidade de histórias que esses povos têm para contar. Se cada um deles guardar dez histórias na memória, usando a matemática teremos algo em torno de 2 mil narrativas.
Daria para encher muito livros. Muitos mesmo. O detalhe é que pelas suas tradições, esses povos possuem uma cultura ágrafa, ou seja, não desenvolveram a escrita. Assim, tudo é guardado na memória e transmitido oralmente, pela fala. A memória assume a forma de livro passado de geração em geração - de pai para filho, de avô para neto.
Algumas dessas histórias podem ser encontradas em ‘‘O Primeiro Homem e Outros Mitos dos Índios Brasileiros’’, livro da antropóloga Betty Mindlin que acaba de ser lançado pela editora Cosac & Naify. Em seu trabalho, Betty percorreu várias tribos coletando as histórias contadas pelos mais velhos das tribos.
O resultado são histórias totalmente desconhecidas para nós, habitantes das cidades. Algumas podem provocar risos, outras despertar um certo medo. Ao todo o livro traz nove narrativas de seis povos diferentes: os Cinta-Largas (Mato Grosso), os Jabutis (Rondônia), os Kaiapós (Mato Grosso e Pará), os Suruís (Rondônia e Mato Grosso), os Tremembés (Ceará) e os Tuparis (Rondônia).
Os textos reproduzem o modo como as histórias são contadas oralmente pelos índios. No começo você pode até achá-las muito diferentes de todas as histórias que já leu, as histórias dos ‘‘brancos’’. Isso porque os indígenas possuem um modo diferente de ver as coisas, uma visão que pode nos ajudar a enxergar coisas que não geralmente não vemos. O fantástico para eles é livre e aberto.
Algumas das histórias de ‘‘O Primeiro Homem’’ podem assustar muita gente se contadas no escuro. Em alguns aspectos lembram os ‘‘causos’’ de assombração do sertanejo brasileiro. Uma delas, por exemplo, narra a história de uma bruxa que, ao anoitecer, tira a cabeça e passa a vagar pela mata em volta da aldeia. Antes de amanhecer, ela volta ao local onde esconde a cabeça e coloca-a no lugar - então volta a ser uma mulher comum. Outra, por exemplo, conta a história de uma cabeça que deslocava do corpo durante o sono e percorria as ocas devorando tudo pela frente. Até criancinhas.
O livro ainda traz três mitos sobre o nascimento da humanidade. Todas descrevem os povos indígenas habitando o céu antes de se fixarem na Terra. Em algumas situações eles desces das alturas utilizando uma corda, em outras, cavam a terra do céu e encontram um outro mundo. Em ambos os casos, apresentam as estrelas como pessoas que não quiseram deixar o céu para viver na Terra.
Mas também há coisas engraçadas em ‘‘O Primeiro Homem’’, como o mito da origem do peido. Isso mesmo, ‘‘A História do Peido’’. Certo dia um índio estava caçando na mata e acabou dando de cara com homem muito estranho. Tentou conversar com ele mas, sentiu que o sujeito tinha um ar ameaçador. Com medo, saiu correndo em disparada. Mas o homem, chamado Peido, correu atrás dele. Quando mais o caçador corria, mais o Peido corria atrás.
Na correria, o índio tropeçou e caiu de bruço. O Peido aproveita a situação e entra dentro do caçador através do ânus. O caçador fica todo preocupado ao sentir que um outro ser dentro de si, mas Peido tranquiliza-o com as seguintes palavras: ‘‘Quando você se sentir mal, não fique preocupado, que eu saio, você pode me soltar!’’
O Primeiro Homem e Outros Mitos dos Índios Brasileiros - De Betty Mindlin, ilustrações de Luana Geiger, Cosac & Naify Edições (telefone: (11)255-8808 / e-mail: [email protected]), 80 páginas, R$ 25,00.

mockup