‘‘Breve Memória do Banestado’’ divide-se em duas partes: a que faz um balanço histórico da instituição e a segunda, que reúne os ‘‘acontecidos’’ contados pelos antigos funcionários. Entre uma parte e outra, tem-se a galeria de seus presidentes.
Dos relatos emerge um tempo ainda ingênuo, quando era possível ocorrer situações como a do gerente que, com medo de ter a agência saqueada em tempos de revolução, abriu o cofre, levou todo o dinheiro para casa, enterrou e plantou flores na cova, para despistar possíveis assaltantes.
João Milczewski ingressou no Banestado em 1949, e promovido a gerente assumiu o posto em Guaíra. A gerência funcionava numa casa de madeira, sem equipamentos nem funcionários. A cidadezinha é descrita no livro como sendo ‘‘isolada do mundo, sem luz, nem água, parecia uma cidade-fantasma, despertada apenas pelos tiroteios e as algazarras habituais’’.
O mesmo Milczewski recebeu ameaça de morte de um cliente. Este intermediava empréstimos e cobrava comissão por isso. ‘‘Enfrentei-o com cabo de vassoura e enxotei-o porta afora’’, relembra ele. Outra de suas histórias é a de um gerente que carregava consigo a chave do cofre. Mas boêmio inveterado, costumava deixar o expediente para ir dormir na zona. Perdia a hora e quando chegava ao trabalho encontrava filas de clientes e funcionários à sua espera. O drama só acabou no dia em que foi demitido.
Sonho revelador Havia também as noites sem dormir longe de mulheres e bebidas. Era quando as contas não batiam e os erros não eram encontrados. Péricles Antônio Hubner conta de um ocorrido desses. Foi em 1965. ‘‘Varamos a noite e já pela madrugada, exaustos, resolvemos deixar a descoberta do enigma para o expediente diurno. O chefe de seção, Percy Kuchembuch, num gesto de destempero, fez menção de jogar para o alto a bandeja onde se encontravam os documentos sob exame. Foi nesse exato momento que se fez a luz. Para nossa alegria, vimos que o documento procurado estava debaixo da bandeja’’.
Outro caso de diferença - esta mínima, de apenas dez centavos, mesmo assim dramática porque a ordem era ter os números zerados - foi resolvido através de um sonho revelador de Eduil Ubaldo Zanicotti. Todos os funcionários foram chamados para ajudá-lo, sem êxito.
‘‘Desolado, até mesmo humilhado’’ ele foi dormir. E no sonho veio o sonho revelando-lhe que a diferença estava na conta do Banco Noroeste do Estado de São Paulo. ‘‘Levantei de manhã, aflito e ansioso, confiante no milagre do sonho. Subi as escadarias do banco num fôlego só e mergulhei de cabeça na conta do Noroeste. Na conferência do dia 12 de junho nada encontrei. Ao iniciar a do dia 13 , meio desesperado, recorri ao santo padroeiro do dia. Bem que Santo Antônio poderia me ajudar. Mentalizei. Não demorou muito e achei a maldita diferença’’.
Nesses tempos as cidades eram pequenas, a convivência mais estreita entre as pessoas. Foi assim que Estanislau Hubner, desempregado, encontrou na rua Quinze de Novembro, no centro de Curitiba, o presidente do Estado, Affonso Camargo. Contou-lhe a situação difícil que estava passando e ali conseguiu o emprego. Na mesma instituição viria a trabalhar seu filho Péricles Antonio, que ingressou aos 14 anos, em 1947.

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