Histórias e castelos bem conservados ilustram o Vale do Loire
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de outubro de 2003
Grupo Eurotrip<br> Especial para a Folha 
Orléans - Boa parte da história da realeza francesa passa pelo Vale do Loire, uma região ao sul de Paris onde se encontram dezenas de exuberantes castelos que mais parecem de conto de fadas. No verão esses châteaux (lê-se chatô), classificados pela Unesco como Patrimônios Históricos Culturais da Humanidade, atraem milhares de turistas interessados em conhecer e ver como viviam os nobres que influenciaram os destinos daquela imponente e imperiosa nação do Velho Continente.
Em plena época dos descobrimentos, reis e rainhas se acotovelavam para deixar suas marcas no estilo de construção das residências oficiais. No total, são 27 castelos construídos entre os séculos XIV e XVIII a mando de diversos nobres nas diferentes épocas, dos mais ambiciosos aos mais extravagantes. As manias destes monarcas, suas preferências e muito do aparato que servia tal ostentação foram preservados e ajudam a ilustrar aquele período áureo.
Além dos castelos, a Rota Histórica do Vale dos Reis, como também é conhecido o Vale do Loire, abriga ainda igrejas, pontes e relíquias do tempo em que a jovem Joana D'Arc, hoje padroeira da França, lutava pela soberania do território francês, tomado pelos ingleses no início do século XV. Questões políticas levaram a guerreira inspirada por Deus para a morte no fogo sob o julgo da Inquisição Católica. Encarcerada e julgada pelo inimigo em Rouen, Joana terminou na fogueira, acusada de bruxaria.
Em Orléans, capital da França Medieval, é possível conhecer a história da mais célebre batalha comandada por Joana e seu exército em 1429, durante a Guerra dos Cem Anos. Um museu foi construído na casa do então tesoureiro Jacques Boucher onde a jovem passou algumas noites até o tão esperado dia da expulsão dos ingleses. A armadura usada pela atriz que interpretou Joana D'Arc no cinema também pode ser vista na antiga residência.
Dos vários castelos que margeiam o rio Loire, os châteaux de Chambord e Chenonceaus são os mais grandiosos. Suas histórias também são bastante interessantes e chegam até a surpreender pela ousadia. Espetáculos noturnos levam a uma viagem por um cenário de luzes, mistério e ilusão. Durante o dia, a beleza dos jardins e as imponentes construções encantam os visitantes.
Chambord Durante o dia, a visita ao castelo de Chambord revela os quartos reais, também ricos aposentos de valetes e a Grande Escada, supostamente projetada pelo mestre Leonardo da Vinci. O curioso desta escada formada por duas espirais em torno de um nó é que as pessoas de fora conseguem ver os que sobem ou descem, mas estes jamais se cruzam. Só mesmo andando por ela é que se pode descobrir o seu segredo arquitetônico.
Ao percorrer as salas, se caminha por diferentes épocas de glória do castelo, descobrindo os vestígios dos personagens que marcaram sua história. Francisco I, o construtor, instalou os seus aposentos na ala norte. O quarto mais luxuoso é o de Luís XIV, o Rei Sol, quem terminou as obras do palácio. Este aposento foi usado ainda pelo rei polaco Stanislas Leszczynski no seu exílio (1725 a 1733) e, mais tarde, ocupado pelo marechal de Saxe.
O château leva hoje o nome do conde de Chambord, neto do rei Carlos X, último nobre proprietário do castelo. O Estado francês comprou a propriedade dos herdeiros do conde em 1930 e criou no seu entorno o maior parque natural fechado da Europa. A reserva é cercada por uma muralha de 32 quilômetros construída ainda no tempo da nobreza para proteger a área que abrangia a residência real e o bosque de caça.
Chenonceau Este é um dos castelos mais bonitos do Vale do Loire e talvez o que carrega a história de alguns dos personagens mais interessantes da monarquia francesa. O Castelo das Damas, como é conhecido Chenonceau, foi erguido no século XVI, a partir de um moinho e de um modesto domínio feudal.
O castelo é quase todo ele de quartos. São aposentos construídos para os reis Francisco I, Henrique II e outros nobres. Aqui viveram ainda a rainha Catherina de Médicis e a amante de seu marido, Diana de Poitiers, para quem o rei presenteou o château. Depois da morte de Henrique II, em 1559, Catherina, agora rainha da França, expulsou a ''concorrente'' e a mandou para outro castelo, o de Chaumont-sur-Loire.
Nas paredes de alguns cômodos é possível ver as iniciais H e C, de Henrique II e Catherina, que entrelaçadas formam o D, de Diana. Bem ao lado do quarto da amante fica o Gabinete Verde, de onde Catherina governou a França. A rainha também imprimiu sua marca no castelo, redecorando-o e inserindo suas letras no teto e nas paredes das principais salas.
Sobre a ponte que ligava Chenonceau à outra margem do rio Cher foi construída uma galeria. Séculos mais tarde, durante a Primeira Guerra Mundial, este espaço serviu de enfermaria para centenas de soldados franceses feridos durante a batalha. Já na Segunda Guerra, o corredor era um dos poucos caminhos que ligavam o território francês ocupado pelos alemães à região de Zona Livre.
No último andar, um quarto todo pintado de preto e detalhes que lembram o luto abrigou Louise de Lorraine, esposa do rei Henrique III, assassinado pelo monge Jacques Clément, em 1589. Após a morte do marido, Louise decidiu se recolher em Chenouceau para rezar. Sempre vestida de branco, segundo o protocolo de luto real, ficou conhecida mais tarde como a ''Rainha Branca''.
Do lado de fora, dois jardins clássicos completam a beleza da construção. O maior leva o nome da preferida do rei Henrique II, sua amante Diana de Poitiers. O menor e mais íntimo foi construído para a rainha Catherina. A decoração dos jardins é totalmente renovada na primavera e no verão e consome 130 mil bulbos, tudo isso para deixá-los sempre impecáveis. As mulheres e amantes dos vários proprietários do castelo transformaram-no num palácio dedicado ao prazer.
Cidades importantes da França medieval, como Blois, Gien, Tours, Chinon, Saumur e Angers também preservam seus castelos e os mantêm abertos à visitação. A região ''adorada pelos reis franceses'' pode ser sobrevoada de balão e a beleza das construções, jardins e bosques admirada do alto, de uma vista privilegiada. As histórias que revelam a vida e os costumes nestes palácios são contadas todas as noites de verão em espetáculos de som e luzes apresentados nos principais châteaux. Vale a pena conhecer!


