Arraial d’Ajuda - Ouvem-se muitos sotaques no Arraial. Cada vez menos o sotaque baiano. Há gente de toda parte do Brasil e do mundo que chega, se apaixona e fica. Ou dá um pulinho em casa, apenas para fechá-la, e volta de mala e cuia. Foi assim com Samira Martins, de 49 anos, hoje gerente comercial do Arraial d’Ajuda Eco Resort. Ela foi passar o réveillon de 92. Seis meses depois, estava lá de vez. Fechou a casa e o café que tinha em Alphaville, o marido pediu demissão da firma e se foram. A filha de 7 anos chorou muito, com saudade de São Paulo. Hoje estão todos adaptados. E felizes.
  Felicidade, aliás, essa coisa intangível, difícil de se explicar, é sempre mencionada quando as pessoas falam dos motivos que as levaram a mudar-se para o Arraial. ‘‘Aqui não ganho muito, mas se eu estivesse atrás de dinheiro não seria feliz’’, diz o paulista Eduardo Oberlaender, de 38 anos, há 11 no vilarejo. Ele é dono do Maré, bar e restaurante que fica na Praia de Pitinga. Para viver no Arraial, abriu mão de algumas coisas que fazia com freqüência, como viajar.
  Eduardo não aconselha a se largar tudo e ir para o Arraial, como muitos fizeram, imaginando um paraíso onde se vive de brisa, no bem-bom, sem trabalhar, com o negócio funcionando sozinho. ‘‘É uma ilusão. Muitos tentam e poucos conseguem.’’ Segundo ele, ainda há espaço para quem sabe o que fazer, de forma consciente e profissional, com os pés no chão.
  Depois de trocar o uísque de quase todo santo dia por suco de mangaba, o paulistano Fernando César da Silva Cruz, de 38 anos, só vai a São Paulo visitar a mãe e os sobrinhos, e olhe lá. ‘‘Chego e fico em pânico’’, conta. Ele decidiu mudar depois de um assalto. ‘‘Teve até tiro. Escapei por pouco e pensei: opa, tenho de dar outro rumo à minha vida.’’ Agora, no fim da tarde, em vez de engolir fumaça na Avenida Paulista, contempla o pôr-do-sol em Trancoso. ‘‘É bom morar num lugar onde o cara vende coco com um sorriso na cara.’’
  De vez em quando – muito de vez em quando – o guia Eduardo Cairo Cavalcanti, de 27 anos, sente falta da vida urbana. Aí, vai a São Paulo. A saudade passa rápido e ele volta. ‘‘Não me acostumo mais. Olha, eu até me sinto mal!’’ Nunca mais teve a renite alérgica que o atazanava quando era representante comercial e rodava a cidade vendendo roupas. Eduardo passa o dia de bermuda e camiseta, levando turistas para fazer passeios ecológicos.
  Mesmo ‘‘uniforme’’ do pai dele, o artista plástico Geraldo Casado, de 50 anos, pernambucano que se mudou para o Arraial depois de viver 30 anos em São Paulo. Hoje, diz que produz quase três vezes mais. ‘‘Eu perdia muito tempo no trânsito, vivia estressado, com medo de assalto.’’ Se acontece de travar, atravessa a rua, fica uns 15 minutos olhando o mar, dá um mergulho, refresca a cabeça. ‘‘Isso me refaz. Aí, tomo um banho de água doce e volto a trabalhar, inspirado.’’
  Em São Paulo, quando chegava nos lugares vestido de modo ‘‘afrescalhado’’, como diz, o chamavam de índio doido. No Arraial, são normais suas calças de surfista no meio da canela, batas, brincos, colares, camisetas com estampas de motos e as sandálias, os cabelos longos, as tatuagens. ‘‘Aqui, as idéias fluem. Aqui, sou feliz’’, diz ele – olha a expressão de novo.
  Paulo de Tarso, músico que toca no Beco das Cores e, incansável, não pára de atender pedidos de bis, afirma que não vive ‘‘por causa do metal’’ e não sossega enquanto as coisas não dão certo. ‘‘Eu só durmo depois que fico feliz.’’
  No começo, Samira estranhou o ritmo dos baianos. Uma vez, comprou sementes em Campinas para fazer uma cerca viva. A empresa despachou e tinha prazo para plantar. Todo dia ela pegava a balsa e ia aos Correios, em Porto Seguro. ‘‘Minha encomenda chegou?’’, perguntava. Resposta: ‘‘Chegou não.’’ Duas semanas depois, notou uma caixa largada
num canto. Perguntou o que era. ‘‘Sei não.
Já tem mais de uma semana que está a풒, respondeu o funcionário. ‘‘Eram as minhas sementes!’’, conta Samira.
  Embora toda expedita, ela já se considera baiana de coração. E aprendeu a compreender os ‘‘conterrâneos’’: ‘‘Não são tão rápidos quanto a gente gostaria, mas fazem tudo com capricho.’’ O motorista Evilásio Brito, de 37 anos, que é de Canavieiras, cidade no extremo sul da Bahia, e trabalha há nove meses no Arraial, tem a explicação para o descompasso entre baianos e paulistas: ‘‘Não é a gente que é atrasado. Eles é que são adiantados’’. (R.B.)

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