Histórias do pensamento
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de agosto de 2002
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 
Todo mundo diz que a Terra é redonda, mas pouca gente realmente viu o planeta lá de cima. Apenas alguns astronautas que, por efeito da falta de gravidade, talvez tenham imaginado coisas.
Existem pessoas que só acreditam nas coisas com os próprios olhos. Tempos atrás existiu um homem assim. Ele, apesar de todas as provas que a ciência oferecia, tinha dúvidas de que a Terra era redonda. Afinal o mundo estava repleto de mentiras e enganações.
O homem então resolveu experimentar, com seus próprios olhos, se o planeta era realmente redondo. Partiu de uma idéia simples: se a Terra era redonda bastava andar sempre em linha reta que um dia voltaria ao ponto de partida. Pensou em tudo que precisaria para a viagem, que talvez levasse décadas, e saiu de casa em linha reta.
Encontrou o primeiro obstáculo logo nos primeiros passos: a casa que ficava em frente a sua, do outro lado da rua. Se desejasse caminhar em linha reta, precisaria passar por cima de casas, carros, árvores, rios, montanhas e outras coisas. Ele bem que poderia desistir da viagem, mas não. Pegou uma escada, subiu no telhado da casa e seguiu em frente.
A história desse homem está presente num dos contos de ''O Homem Que Não Queria Saber Mais Nada e Outras Histórias'', livro do escritor Peter Bichsel que acaba de ser publicado pela Editora Ática. Um dos destaques da literatura infanto-juvenil de língua alemã pouco publicado no Brasil, Bichsel possui um jeito muito interessante de narrar histórias de personagens determinados em experimentar alguma verdade. Brincando com as palavras, com devida serenidade, consegue ampliar o leque de possibilidades que elas podem oferecer. Deixa claro que o uso das palavras pode ampliar tanto o pensamento como a visão de mundo.
Ilustrado por Roger Mello, ''O Homem Que Não Queria Saber Mais Nada'' é formado por sete pequenos contos impecáveis. Dificilmente o leitor passará por eles sem nenhum deslumbramento de raciocínio e comoção. São textos que inicialmente mascam chiclete, depois jogam a goma no chão. Na sequência faz com que o leitor pise sobre ele e siga em frente, arrastando fiapos de chiclete pelo asfalto quente com deslumbramento.
A maioria dos personagens de ''O Homem Que Não Queria Saber Mais Nada'' é formada por pessoas solitárias que procuram entender a vida de modo particular. Seja trocando o nome das coisas, seja desejando saber por que se vive de determinada maneira e não de outra, seja inventando coisas que já existem, ou mesmo mantendo a mente cheia para não se sobressaltar diante das surpresas. Histórias que unem diversão e reflexão com grande abertura para o exercício do pensamento. Aquela experiência de compreender o outro para entendermos a nós mesmos.
Serviço
''O Homem Que Não Queria Saber Mais Nada e Outras Histórias'' de Peter Bichsel, ilustrações de Roger Mello, Editora Ática, tradução de Cláudia Cavalcanti, 80 páginas, R$ 12,90.


