"Histórias do Flamengo" reúne material do Canal 100
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quarta-feira, 22 de dezembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchi 
São Paulo, 22 (AE) - O trabalho de Carlos Niemeyer pode ser conferido no longa-metragem "Histórias do Flamengo", que estreou há tempos no Rio de Janeiro, mas permanece inédito em São Paulo. Aparentemente, os distribuidores entendem que futebol é coisa de gente fanática e nenhum sócio de carteirinha da Mancha Verde ou da Gaviões da Fiel vai sair de casa e pagar ingresso para assistir às proezas de um rival histórico.
Isso em parte é verdade. O documentário se concentra nos anos áureos da era Zico, que qualquer flamenguista de bom senso guarda no coração, mas esse sentimento não é partilhado pelos adversários. No filme, assiste-se ao Flamengo ganhar o tricampeonato carioca em 1979, os jogos contra o Atlético Mineiro no campeonato brasileiro do ano seguinte, e a conquista do mundial em Tóquio contra o Liverpool, em 1981. Há sequências fantásticas de jogadas de Romário, que farão os flamenguistas mais sensíveis chorar aquilo que o fluminense Nélson Rodrigues chamava de lágrimas de esguicho.
Enfim, você pode ser flamenguista ou não, mas essas são imagens que interessam a todos aqueles que amam o futebol, independentemente do time para o qual se torce. Mesmo porque Carlinhos Niemeyer foi um cineasta do sentimento. E, para transmitir todo o impacto emocional de um jogo, lembrou-se de que a platéia é parte integrante do espetáculo. Assim, sua equipe era instruída para manter um olho no jogo e outro na arquibancada. Na montagem do material filmado, sabia alternar um gol magistral de Zico com a imagem de algum torcedor desdentado, louco de alegria em sua simplicidade. No momento do gol do seu time, o brasileiro pobre vira um rei. Niemeyer sabia disso e o expressava.
Essa maneira de registrar o futebol deixou filhotes, o que é uma das maneiras mais seguras de constatar a qualidade de um trabalho. Quando o cineasta Murilo Salles foi convidado pela Fifa para fazer o filme oficial da Copa de 1994, inspirou-se no velho Canal 100. Claro, seu belíssimo "Todos os Corações do Mundo" foi uma superprodução de US$ 8 milhões, que contou com todos os luxos de filmagens e disponibilidade de 22 câmeras. Estas eram parte de um equipamento de 30 toneladas, pilotado por um exército de bons profissionais, que registravam cenas em vários estádios norte-americanos. Para sorte de Murilo, o Brasil venceu a Copa naquela inesquecível disputa de pênaltis contra a Itália, com Roberto Baggio errando as redes e mandando a bola para o espaço infinito. Por trás da parafernália high tech de "Todos os Corações do Mundo" havia a lição simples do Canal 100: futebol é, antes de tudo, emoção. A montagem em câmera lenta deve realçar os movimentos, da mesma forma que num filme de Sam Peckinpah serve para sublinhar a violência. O jogo de pernas de um atacante tentando driblar o zagueiro é algo semelhante a um balé; e uma boa trilha sonora pode transformar um jogo em ópera trágica ou num épico, dependendo do resultado e do ponto de vista do torcedor.
Conhecer o futebol pelo Canal 100 era uma iniciação e uma forma de alegria. Isso faz sentido quando se conhece a biografia de quem bolou o cinejornal. Carlinhos Niemeyer era um ser feliz, em paz com a vida, bon vivant e professor permanente da arte do bom humor. Quando lhe perguntavam a idade em entrevistas respondia que só podia dizer que era do signo de Virgem. Acrescentava: "E às virgens não se pergunta a idade".
Foi aviador na Força Aérea Brasileira durante a 2.ª Guerra Mundial, mas não se notabilizou como piloto de combate e sim como fundador do mitológico Clube dos Cafajestes. Segundo ele, o clube nada fazia para justificar o nome, que funcionava apenas como provocação. Dizia que a idéia tinha surgido quando tentou namorar uma moça que morava em Teresópolis e o pai dela o tinha despachado com a inamistosa explicação: "Minha filha não sai com cafajeste".
A agremiação prosperou e os sócios passaram a organizar uma festa que se tornou famosa, a do caju amigo, em homenagem à bebida inventada por um dos seus beneméritos. Segundo Carlinhos, o segredo da festa não estava no drinque e era simples: bastava manter uma proporção constante de três mulheres para cada homem dentro do recinto. Esse bom senso presidia também a vida profissional de Niemeyer. Descobertos os fundamentos - emoção no registro, câmera lenta, closes nos jogadores e no público -, ele procurou montar e depois preservar uma equipe coesa de colaboradores. Trabalhou durante muito tempo com os mesmos câmeras, redatores, montadores, editores de textos e locutores: Francisco Torturra, João da Rocha, Liercy de Oliveira, Walter Roenick, Luís Otávio Coimbra, Cid Moreira, Corrêa de Araújo, Maria do Céu Reis. Niemeyer era o maestro desse time e, com ele, montou o maior e melhor arquivo de imagens do futebol brasileiro.
Como cineasta, Niemeyer acompanhou as Copas do Mundo de 1962 a 1982, ou seja, da conquista do Chile, ápice da carreira de Mané Garrincha, à tragédia em Sarrià, quando uma seleção brasileira de sonho foi desclassificada por três gols do italiano Paolo Rossi. Foi também produtor do único filme dirigido por Luiz Carlos Barreto, "Isto É Pelé", história da vida e obra do craque do século. Assinou, ele mesmo, um longa-metragem, "Brasil Bom de Bola", levantamento das participações do Brasil em Copas do Mundo, de 1938 até a conquista do tricampeonato, no México, em 1970. "Brasil Bom de Bola" causou polêmica involuntária no Festival de Brasília de 1971. O Brasil vivia sob a ditadura de Emílio Médici e no ano anterior tinha ganho definitivamente a Taça Jules Rimet.
A conquista foi devidamente usada como fato político pelo regime militar e, por isso, futebol passou a ser visto como sinônimo de alienação. Em especial por gente que achava a revolucionária "Caminhando", de Geraldo Vandré, mais empolgante que a marchinha de Miguel Gustavo, "Pra Frente Brasil", fundo musical obrigatório das vitórias da seleção. A coisa ficou feia quando o engajadíssimo "O País de São Saruê", de Vladimir Carvalho, foi proibido de concorrer no festival por intervenção da censura, então toda-poderosa.
Em seu lugar, entrou "Brasil Bom de Bola" que, compreensivelmente, não foi bem recebido. O público brasiliense reclamou de tudo que viu na tela, principalmente do final ufanista, com o general-presidente recebendo os tricampeões em Brasília. Essa intervenção da censura tumultuou o festival que, de tão pressionado, fechou para balanço por três anos.
Niemeyer não tinha nada a ver com isso. Seu filme entrou de gaiato numa época em que a radicalização de opiniões era inevitável, mas limitava-se a celebrar a grande arte do jogo da bola, que ele soube registrar como ninguém.


