Histórias do comandante do primeiro ferry boat
Aos 91 anos, Seu Janjão recorda sua vida no mar, desde que começou a fazer a travessia da Baía de Guaratuba em 1962
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domingo, 01 de fevereiro de 2026
Aos 91 anos, Seu Janjão recorda sua vida no mar, desde que começou a fazer a travessia da Baía de Guaratuba em 1962

A Ponte de Guaratuba, que colocará fim a um gargalo histórico e ligará por completo o Paraná, promete trazer ainda mais progresso ao Litoral. Mas muito antes da ponte sequer ser cogitada, o ferry boat foi a solução encontrada há mais de 60 anos para promover a travessia de uma ponta à outra, e que tem ajudado a levar desenvolvimento para a cidade que hoje, para ser acessada por terra, apenas por Santa Catarina. Cerca de 40 milhões de veículos já transitaram no ferry.
O primeiro ferry boat a fazer a travessia na Baía de Guaratuba é de 1960, criado pelo governador Moisés Lupion. A embarcação, de madeira, media 27 metros de comprimento por 10 metros de largura e contava com dois motores GM de 130 cavalos. “Tinha sanitário a bordo, beliche na casa de navegação para dormir e armário com fogareiro para alimentação”, conta João James de Oliveira Alves, mais conhecido como Seu Janjão. “O nome do barco era ‘Engenheiro Ayrton Cornelsen’. Transportava dez automóveis e um caminhão leve. Não passava ônibus.”
A riqueza de detalhes tem motivo. Janjão foi o primeiro comandante do ferry boat, quando o serviço foi reinaugurado dois anos depois pelo governador Ney Braga, após obras na embarcação. “Devido a flexibilidade do barco houve problema de estanqueidade [entrada de água]. A Capitania decretou a retirada da travessia, e o barco foi ao estaleiro para manutenção. Retificou o calafeto [vedação de frestas], colocou da linha d’água para baixo chapa de cobre, revestindo todo ele. Resolveu”, explica.
Natural de São Francisco do Sul, município catarinense, Janjão chegou ao Litoral do Paraná através do convite de um amigo, cujo irmão procurava alguém experiente com embarcações para comandar o serviço de travessia.
Janjão esteve embarcado no ferry boat de Guaratuba de 1962 a 1978, ou como gosta de frisar, “15 anos e quatro meses”. Ele veio sozinho para a cidade, deixando a família em Joinville até que as coisas se ajeitassem por aqui. Na região de Caieiras, Janjão foi pioneiro. Ajudou a construir escola, batalhou por um acesso exclusivo para a localidade, deu aulas para formar mestres em ferry boat, como também são chamados os comandantes. A família veio na sequência, e ali atracaram para nunca mais sair.
Durante os mais de 15 anos no comando da travessia, primeiro com o barco Ayrton Cornelsen e depois com as embarcações Iguassu e Tibagi, Janjão viu de tudo um pouco no ferry boat de Guaratuba. Transportou autoridades, como o próprio governador Ney Braga e o ex-presidente paraguaio Alfredo Stroessner, que se exilou na cidade por dois meses após ser deposto, em 1989. Levou de artistas a pessoas comuns.
Um dos episódios mais marcantes em sua trajetória, porém, foi o afundamento de parte da cidade (por erosão marinha), onde hoje está localizada a Praça dos Namorados. Na noite de 22 de setembro de 1968, um homem bateu na porta de sua casa. Era o amarrador do ferry boat. “Comandante Janjão, estão chamando o senhor. Guaratuba está caindo. É preciso prestar socorro. O ferry boat já está guarnecido, o condutor está a bordo virando motor. Só precisa da sua presença para fazer a travessia. É urgente”, disse o homem à época.
“Iniciamos a travessia trazendo socorristas, médicos, policiais, tudo veio de Paranaguá para prestar socorro aqui. Fizemos esse trabalho até as três horas da manhã, quando a maré iniciou a vazante. Nisso vieram armações de casa, assoalhos, móveis, tudo. Não tinha mais condição de atravessar”, complementa. “Os moradores embarcaram, muitos só com traje íntimo, em caminhões e ônibus, e foram para Garuva, com medo de que Guaratuba caísse toda. Mas não caiu”.

A VIDA TAMBÉM PASSA ALI
Em 1975, a esposa de Janjão, grávida da filha caçula, precisou usar o ferry boat para ir até o hospital. “Aqui não tinha maternidade, sendo preciso ir a Paranaguá. O médico examinou e disse que estava tudo bem, mas que a menina só nasceria no dia seguinte, depois da meia-noite. Ela ficou internada e eu voltei para Guaratuba. Na manhã seguinte, fui ao DER ligar para a maternidade, porque não tínhamos telefone. ‘Pode ficar tranquilo, nasceu a menina, está tudo bem’, me falaram.”
Havia nascido a sétima filha de Janjão. Para escolha do nome, a tradição. “Meu pai dizia para colocar o nome dos filhos com mar. ‘Tem que botar mar, porque tu és do mar, assim como eu’”, lembra o comandante. E ele seguiu o ensinamento. “Gilmar, Vilmar, Edilamar, Lindomar, Rosemar, Altemar e Lucimar, tudo com ‘mar’. E a minha esposa é Maria, com o mar na frente. Tem história.”
OUTRA ÉPOCA
Quem vê hoje as seis embarcações que fazem a travessia na Baía de Guaratuba não imagina o desafio que era realizar esse serviço há quase sete décadas atrás.
Naquele tempo, uma embarcação saía às seis da manhã, outra ao meio-dia e, dali em diante, rodavam até às 18 horas, ou então noite adentro em caso de fila. “Guaratuba não tinha luz. Era a luz de bordo que iluminava para fazer a atracação. Nunca aconteceu acidente algum sob meu comando. Até com cerração eu atravessava, porque eu tinha conhecimento da maré”, afirma o comandante.
“Com neblina eu só atravessava com maré parada. Tinha os rumos certos, o tempo certo para fazer isso”, recorda, ao citar que hoje em dia as embarcações contam com sensores, radares e GPS para orientar o mestre. “Nós fazíamos fogo em tambores em um porto e no outro para enxergar bem onde ia atracar, e batíamos nele para também se guiar pelo som. Contávamos com holofote de bordo, o farol de busca. Nunca houve anormalidade no meu trabalho”, diz, com o sentimento de orgulho no olhar ao contar sua trajetória, no alto de seus 91 anos..
O FUTURO CHEGOU
Tendo trabalhado desde o início da travessia, Janjão sabe da importância que o ferry boat teve para o desenvolvimento de Guaratuba. Foi por meio dele que a cidade cresceu, se desenvolveu e tornou-se uma das principais cidades litorâneas do Sul do País.
Mas ele também entende a importância que a ponte terá para garantir que esse desenvolvimento possa continuar.

“Quando eu vi o projeto da ponte ligando o Porto da Passagem até o morro onde tem a torre da Copel, resolvi fazer um croqui da ponte, ligando estrada com estrada, com cerca de 1.200 metros. Sei disso pela travessia do ferry boat, que tem essa distância. Nesse croqui a única agressão à natureza com as obras da ponte seriam as estacas fincadas no fundo do mar”, comenta. Ele levou o croqui até a prefeitura, em 2021. “Acho que levaram para o governador, porque depois abriu a concorrência com essa ponte que está aí, da forma que sugeri”.
Em julho de 2024, Seu Janjão recebeu o título de Cidadão Honorário do Município de Guaratuba, concedido pela Câmara Municipal em reconhecimento aos seus serviços e engajamento na comunidade. “Eu sou um soldado desconhecido. O que eu faço não é visando benefício financeiro, mas sim em benefício da comunidade, para ajudar as pessoas”. É isso que fez ao longo de toda sua vida, e continua fazendo.
* Com informações da Agência Estadual de Notícias.


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