Histórias do café
Histórias do café
Não acreditam, vão lá ver: no campo de aviação velho, ao lado da fazenda, já queimam os primeiros montes de café. Caminhões de caçamba chegam cheios a granel, despejam e vão buscar mais nos armazéns; enquanto tratores de lâmina empilham o café em montes, as rodas triturando os grãos que foram colhidos a mão, peneirados, secados no terreiro, rastelados, descascados, ensacados, desensacado nas caçambas e finalmente regados a gasolina para queimar ali, de onde se vê a fumaça na Capital Mundial do Café, para que o mundo saiba: o Brasil prefere queimar do que exportar café abaixo do custo.
Saqueiros sobem nos montes e vão despejando galões de gasolina; vão chegando caravanas da cidade, e depois ficam todos em volta das grandes fogueiras; fazendeiro, peões, sitiantes, saqueiros, funcionários do governo, gerentes de banco, comerciantes, corretores de terras e de café, torrefadores, maquinistas, todo tipo de gente que vivia da cafeicultura, olhando o fogo e tossindo assustados. É o fim do café, diz Góis chorando, todos choram também com a fumaceira; no fim do dia, não se vê o sol e a névoa seca esconde o horizonte.
- Acabou o café - repete Góis.
- Mas não acabou o mundo - consola Tiana.
(Fragmento de Terra-Vermelha, romance de Domingos Pellegrini, Editora Moderna, 512 páginas.)





