HISTÓRIAS DE VINÍCIUS
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segunda-feira, 02 de julho de 2001
Sid Sauer De Campo Mourão 
Quem foi ao show que Toquinho fez sexta-feira no Teatro Municipal de Campo Mourão pensando apenas em ouvir os maiores sucessos do cantor e compositor, se surpreendeu. Toquinho dedicou boa parte da apresentação para contar histórias de seu mais famoso parceiro, o poeta Vinícius de Moraes, morto em 1980.
O próprio cantor definiu o show Toquinho Voz e Violão como sendo um bate-papo musical. Entre uma música e outra, acompanhado apenas por um violão e pela cantora Vanda Breder, Toquinho falou desde o vício de Vinícius pelo uísque e os nove casamentos dele, até provocações do poeta a Chico Buarque e a uma desastrada homenagem ao poeta chileno Pablo Neruda.
Toquinho contou, por exemplo, que Vinícius dizia tomar o chamado uísque da Ave Maria somente depois das 18 horas e que ele chegou a afirmar que o uísque era seu melhor amigo, alguém que nunca o tinha traído. O poeta teria até afirmado que o uísque era como um cachorro engarrafado.
Toquinho também lembrou uma temporada de apresentações no Rio de Janeiro, com Vinícius e Tom Jobim, em que a duração do show era definida pelo grau etílico dos dois. Foi numa conversa de bastidores de um show desses que Tom Jobim teria chamado Vinícius de grande mentiroso por escrever Eu sei que vou te amar e se casar nove vezes. Foram nove casamentos mesmo, com casa e tudo, frisou Toquinho.
Toquinho contou que Vinícius não gostava de o ver fazendo parcerias com outros compositores. Para ele, parceria era como um casamento. Só não tinha sexo, lembrou. Do amigo Chico Buarque, segundo Toquinho, Vinícius tinha um ciúme especial. A tal ponto que Vinícius fez questão de ir provocar Chico Buarque quando este voltou do exílio. Vinícius queria mostrar as canções que tínhamos feito só para deixar o Chico arrasado, contou Toquinho.
Vinícius fez questão, no entanto, de mudar um único verso de uma composição de Toquinho e Chico Buarque (Samba de Orly) só para ver seu nome incluído na parceria. Quando a censura do regime militar vetou justamente o verso de Vinícius (Pede perdão pela omissão um tanto forçada), ele não pensou duas vezes: disse a Toquinho que o verso poderia ser retirado, mas seu nome da parceria, não. Tanto é que a parceria ficou até hoje.
Toquinho também citou o lado vaidoso de Vinícius. Disse que compôs uma melodia em homenagem a ele (Samba para Vinícius) e a mostrou para o próprio poeta. Sem modéstia, Vinícius sugeriu a Toquinho que levasse a melodia a todos os melhores letristas do País para que cada um fizesse uma letra diferente. Toquinho não deu bola. Levou a melodia apenas para Chico Buaque. Vinícius ouviu e gostou da música. Disse que nem precisava mandar mais para nenhum outro letrista.
Numa outra história, Toquinho lembrou do dia em que ele e Vinícius foram mostrar ao poeta chileno Pablo Neruda, em Paris, a música que tinham feito em homenagem a ele. Neruda ouviu e disse que não havia entendido a homenagem. Pudera. O verso em espanhol que abria a música e que Vinícius jurava ser de Neruda era, na verdade, parte de um famoso tango argentino. Passamos a maior vergonha, disse Toquinho. Sorte que os dois eram grandes amigos.
O show Toquinho Voz e Violão foi o primeiro realizado em Campo Mourão pelo Clube da Cultura. A entidade foi criada com o objetivo de juntar em torno de 350 sócios para viabilizar a atração de espetáculos culturais à cidade. Por enquanto, o clube tem cerca de 200 que contribuem com mensalidades de R$ 20. Além de atrair espetáculos, o clube pretende financiar grupos culturais de Campo Mourão.


