Jota
De Londrina
Especial para a Folha2
O desenhista André Toral lança neste mês ‘‘Adeus, Chamigo Brasileiro’’, livro em que conta a história da Guerra do Paraguai com pinceladas de ficção. Obra nasceu de uma intensa pesquisa histórica e iconográfica
A história em quadrinhos brasileira acaba de ganhar uma obra que vai atrair a atenção tanto dos leitores fiéis ao estilo das modernas ‘‘graphic novels’’ de um Frank Miller ou de um Will Eisner quanto de interessados na emoção ponderada do estudo da história brasileira. O desenhista André Toral - que também é antropólogo e historiador - é o autor da façanha. Após pesquisar a história da Guerra do Paraguai (1864-1870) durante quase quatro anos, trabalho que o levou em viagens de estudo à Argentina e ao Paraguai, Toral lança neste mês pela editora Companhia das Letras ‘‘Adeus, Chamigo Brasileiro’’, álbum com 116 páginas coloridas em que conta uma história de ficção apoiada nos estudos históricos que desenvolveu sobre a guerra onde se envolveram os quatro países que hoje tentam juntar suas fronteiras na criação do Mercosul.
A Guerra do Paraguai é um dos eventos históricos mal resolvidos na memória brasileira. Para um país que não cultiva o hábito de debater com franqueza nem seus acontecimentos mais recentes, foi mais fácil render-se às facilidades da história oficial - que cultiva o mito do Brasil varonil combatendo o tirano paraguaio Solano López - que debruçar-se sobre o estudo das complexidades em torno da Tríplice Aliança, acordo que juntou Brasil, Uruguai e Argentina na guerra contra o Paraguai.
Do lado brasileiro, o que era para ser uma guerra fácil acabou se prolongando por cinco anos, secou os cofres do Império e minou o prestígio do imperador Pedro II. O esforço de guerra gerou um dos maiores déficits de nossa história com gastos militares que excederam em onze vezes o orçamento governamental de 1864, ano do início da guerra. A campanha foi também o nascedouro do Exército Brasileiro, o mesmo exército que menos de duas décadas depois instauraria a República no Brasil. Para o Paraguai o resultado foi um Estado nacional destruído e grande parte de sua população dizimada nas batalhas e nas retaliações posteriores à derrota do chefe militar Solano López.
Este episódio importantíssimo da história brasileira, no entanto, gerou poucos estudos publicados. O livro de Toral, 41 anos, inova ao explorar o tema na forma de quadrinhos, linguagem na qual trabalha paralelamente às suas funções de historiador e de antropólogo. Ele publica histórias em quadrinhos regularmente desde 1982 e chegou a ter seu trabalho premiado em 1992 com o prêmio ‘‘HQ Mix’’. No álbum publicado pela ‘‘Companhia das Letras’’ Toral juntou seus talentos de historiador e quadrinhista. ‘‘Chamigo’’, uma forma moderna do Paraguai dizer ‘‘meu amigo’’ em guarani, é certamente seu melhor trabalho.
Seus personagens de ficção - dois baianos alistados no exército à força, um oficial aristocrata da corte e um paraguaio - vivem suas aventuras tendo como suporte imagens verídicas que Toral recolheu em suas pesquisas sobre a iconografia que cerca a Guerra do Paraguai. Uniformes, carros de batalha, armamentos, todos os objetos e paisagens que surgem nas cenas são reais, tendo sofrido apenas a adaptação necessária para a linguagem dos quadrinhos.
‘‘Adeus, Chamigo Brasileiro’’ é parte de uma tese de doutoramento em História na USP. Produzida em duas partes - sendo a primeira a história em quadrinhos, que foi colorizada para a publicação - a tese levanta uma extensa iconografia sobre a guerra produzida, entre 1864 e 1870. A segunda parte é um levantamento crítico desta iconografia, dividida em pintura, fotografia, desenho e imprensa ilustrada. Um trabalho que estuda as imagens da guerra e seus criadores.
‘‘Não tenho nenhuma intenção de reivindicar que as histórias em quadrinhos possam ser ‘científicas’. Procurei apenas mostrar que pode-se falar de imagens através de imagens’’, diz Toral que para munir-se do máximo de informações visitou os locais das mais importantes batalhas e desenhou objetos e vestimentas dos soldados encontrados em museus e institutos de pesquisas do Paraguai onde, segundo o desenhista, a guerra faz parte da memória viva da população. ‘‘Um motorista de táxi do Paraguai sabe mais sobre a guerra do que um professor universitário brasileiro’’, fala Toral, que credita a indiferença brasileira ao fato de este ter sido apenas mais um episódio da intervenção imperialista do Brasil na região. Para consolo de nós brasileiros, segundo o desenhista, apesar das violências praticadas pelo Império Brasileiro durante o conflito, os paraguaios não guardam ressentimentos. O mesmo não acontece em relação aos argentinos, que os paraguaios encaram com uma hostilidade semelhante àquela dos tempos de guerra.
‘‘Adeus, Chamigo Brasileiro’’ tem ares de superprodução cinematográfica. Os personagens caminham entre paisagens conhecidas dos brasileiros, como o quadro ‘‘Combate Naval do Riachuelo’’ do brasileiro Vitor Meireles. O pintor, em suas andanças pela área do conflito em busca de referências para seus quadros patrióticos, convive com os personagens de ficção que vivem suas histórias pessoais em meio aos enfrentamentos armados. O monarca Pedro II - que entrou entusiasmado na guerra, para sair dela com o prestígio político abalado - também surge em cena na histórica viagem que fez para efeitos de propaganda interna à fronteira próxima dos campos de batalha.
O material visual recolhido por Toral e a pesquisa histórica minuciosa faz de ‘‘Adeus, Chamigo Brasileiro’’ um museu vivo, onde o leitor convive com os fatos históricos enquanto acompanha os heróis da saga em quadrinhos. Os desenhos - realizados a lápis, copiados em alto-contraste e finalmente coloridos à mão em aquarela - são realistas e detalhados. Uniformes, armamentos, navios de guerra, tendas militares, tudo que surge em cena foi copiado fielmente dos materiais realmente utilizados na época. Este detalhismo traça um retrato de época como nunca se viu nos quadrinhos brasileiros e ajuda a desvendar para o leitor todo o significado dessa guerra que destruiu o Estado paraguaio e abalou o império brasileiro. As imagens de batalhas, desenhadas com realismo, lembram as melhores epopéias realizadas pelo cinema.
Durante a história vão aparecendo cenas extraídas de fotos e pinturas da épocas e também frases e situações de ‘‘Iaiá Garcia’’ romance de Machado de Assis (1859-1888) em que o personagem Jorge, para impressionar a donzela que o preteriu em suas tentativas amorosas, segue para a luta no Paraguai. Essas inúmeras referências - fiéis ao espírito da tese de Toral, de um levantamento crítico das imagens da guerra - enriquecem a narrativa sem prejudicar o ritmo necessário a uma boa história em quadrinhos.
Dois personagens da história em quadrinhos são cúmplices explícitos do desenhista na captação de imagens. O oficial aristocrata trabalha para a revista ‘‘Semana Ilustrada’’, editada pelo jornalista e caricaturista brasileiro Ângelo Agostini, autor de muitos desenhos sobre a participação do Brasil na guerra. O personagem paraguaio é um jornalista do semanário ‘‘Cabichu풒, publicação de propaganda militar dos paraguaios. O ‘‘Cabichu풒 - nome de uma pequena vespa - foi criado em resposta aos ataques que Solano López sofria do jornal ‘‘El Musquito’’ da Argentina, nação parceira do Brasil na agressão militar.
Na tentativa de desmoralizar os brasileiros, o ‘‘Cabichu풒 publicava caricaturas que mostravam o exército imperial composto de soldados com rabos e orelhas de macacos por causa do alto número de negros escravos convocados à força para a luta no Paraguai. A compra de escravos para o combate tornou-se necessária quando as baixas no lado brasileiro começaram a dificultar o recrutamento da população civil. Este recurso tornou-se um ótimo negócio para os senhores, que eram pagos pelos ‘‘voluntários’’. Os alistamentos à força de pessoas pobres também se tornaram norma, caso de outros personagens de ‘‘Adeus, Chamigo Brasileiro’’, dois vaqueiros baianos - um deles escravo alforriado - que seguem amarrados para os combates no Paraguai.
A Guerra do Paraguai causa polêmica até hoje entre os historiadores, que se dividem em pelo menos três correntes de opinião na análise do papel dos países da ‘‘Aliança Tríplice’’ no conflito. A imagem da nação brasileira gloriosa combatendo o déspota paraguaio foi martelada na cabeça dos estudantes, principalmente durante o período militar (1964-1985) quando vigorava a censura e a imposição de valores cívicos de ‘‘orgulho pátrio’’ determinados pela política educacional do governo. Mais recentemente tomou força uma corrente, chamada de ‘‘revisionista’’, que vê uma participação imperialista dos ingleses na guerra, usando os aliados, principalmente o Brasil, na destruição de uma suposta tentativa do paraguaio Solano López em criar um modelo econômico independente na América Latina. Neste caso, o livro ‘‘Genocídio Americano’’, do gaúcho J. J. Chiavenatto, é a obra mais conhecida.
André Toral discorda desse ponto de vista, para ele fruto de um tipo de análise que se fixa demais nos ‘‘conflitos norte-sul’’ entre países da América Latina e os países ricos. Para ele essa opinião é reducionista e não ajuda a compreender as razões da guerra. O desenhista compartilha da visão de Moniz Bandeira, Francisco Doratiotto e José Murilo de Carvalho. Para Toral, a Guerra do Paraguai explica o processo de formação da distribuição de poderes entre os países da Bacia do Prata, modelo que ainda persiste. O Brasil passa a ter que dividir sua hegemonia na região com a Argentina, que consolida-se como nação. E o Paraguai sai como perdedor nessa partilha, amargando os frutos de sua derrota até os dias de hoje.
A complexidade política da Guerra do Paraguai não estorva o prazer de fruição da narrativa dos quadrinhos de ‘‘Adeus, Chamigo Brasileiro’’. Não há nenhum didatismo emperrando as emoções das aventuras dos quatro aventureiros entre as fronteiras que até hoje não se entendem muito bem no sul da América Latina. Os quadrinhos de André Toral não ficam nada a dever em informação aos melhores livros de história. E ainda tem sobre eles a vantagem de ser uma obra artística da melhor qualidade.

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