São Paulo - Que história de gênio que nada. O que João Gilberto queria ser mesmo era um ônibus. E um ônibus bem mazela, daqueles que vinha desmanchando pela Avenida Carmela Dutra, na orla do Rio São Francisco, lá pelos anos de 1950 em Juazeiro da Bahia. João via a cena com ternura ao lado de amigos que o viam com espanto. ''Eita que o rapaz é doido mesmo'', era a frase que se ouvia. Ao sentir os colegas o estudando, tentava explicar a origem dos seus desejos. ''Olha que coisa feliz, eu queria ser um ônibus desse.'' ''Que isso, João? Ser um ônibus velho e feio desse?'' ''Não rapaz, repare só. Eles passam embaixo das árvores e as folhas coçam a cabeça deles. É lindo.'' Ninguém entendia João e João não entendia ninguém. O que faltava ao mundo, dizia, era um pouco mais de poesia.
A Juazeiro de João Gilberto ainda está lá, com um sol que só não torra seus 197 mil habitantes como amendoim graças à brisa do Rio São Francisco. De João Gilberto mesmo, quase nada. O João que sobrou em Juazeiro da Bahia está na cabeça de gente com mais de 80 anos que nunca saiu de lá, lúcida o suficiente para ajudar a entender por que aquele menino com jeitão esquisito que assustava visitas na casa da mãe, Dona Patu, se tornou esse caso raro de homem elevado a lenda ainda em vida. Até fazer 18 anos, quando foi estudar e tentar o caminho das artes em Salvador e depois no Rio de Janeiro, João brincou na grande casa de cinco quartos no número 20 da Praça Imaculada Conceição; nadou nas águas do São Francisco com o amigo Galo; dançou valsa e bolero no Clube 28 de Setembro com a bela Edhete; tocou violão com o gozador Pedro China; e foi expulso, ou melhor, convidado a se retirar da escola pela professora Maria de Lurdes Duarte - um dos episódios não visitados nem pelos livros de época sobre o cantor.
Uma senhora com lembranças que valem ouro diz o seguinte: ''João, o aluno, era terrível''. Ao menos naqueles anos primários na escola que funcionava em um prédio de 1928 onde fica hoje a Casa dos Artistas, ele bagunçava as carteiras da classe e a vida dos amigos. E nada em seu boletim dava a entender que haveria compensações futuras. As notas de João eram ''normais'', lembra a professora Lurdes Duarte, hoje com 93 anos. ''Ele tinha uma personalidade danada, era bagunceiro, trocava tudo de lugar.''
O menino era danado não só na escola. Dona Juzy Duarte, 82 anos, lembra de uma cena testemunhada na casa de Dona Patu por uma amiga, Maria, que lá ficaria hospedada uma noite. ''Dona Patu pediu para João pegar um copo d'água na cozinha. João foi e voltou girando uma espécie de bandeja com cordinha da época que trazia o jarro e os copos com água. Ele fazia isso tão rápido que a água não caía.'' Sua amiga queria sumir: ''Não fico mais lá não'', disse depois.
Bem antes de criar a batida da bossa nova, que só viria em definitivo com ''Chega de Saudade'', o violão já era um parceiro nas dores de João Gilberto. Dona Juzy, da turma da irmã de João, Maria, tem uma imagem que não desbota de suas memórias. Era velório do pai de João. O corpo estava sendo velado em casa. Os adultos choravam, as crianças brincavam. E João, cadê João? ''Estava tocando violão. Nunca me esqueço daquilo. Enquanto o pai era velado ele ficava lá, sentado sozinho na pracinha perto da casa com aquele violão triste.''
João se vai de Juazeiro, ganha o mundo, cria a bossa, vira o mito, e não parece sentir saudades da carne de bode. Como João, o Grande, voltaria poucas vezes a Juazeiro, sempre protegido pela aura de mago excêntrico que o livraria da condenação de louco em sua própria terra. E então, ganha carta branca. Quanto mais insanidade dizem que tem, mais gênio parece ser.
Insanidades em Juazeiro é com o doutor Dewilson. Dewilson Oliveira, 87 anos, é primo de João Gilberto, psiquiatra e dono do Sanatório Nossa Senhora de Fátima desde 1957. Fala com dificuldades mas tem tutano para dar um diagnóstico ao parente, seja como doutor das faculdades mentais, seja como primo de mil histórias. Afinal, doutor Dewilson, João Gilberto é louco ou é gênio? ''Que louco que nada. O problema é que João só faz aquilo que ele quer fazer.''

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