O escritor russo Liev Nikoláievitch Tolstói (1828 - 1910) é famoso pela autoria de dois grandes romance da literatura universal, ‘‘Ana Karênina’’ e ‘‘Guerra e Paz’’. Embora sempre seja lembrado como romancista por esses dois clássicos, escreveu inúmeros contos e várias novelas. São textos que estão no mesmo patamar de qualidade de seus grandes romances.
Dois livros que acabam de ser publicados oferecem um ótimo panorama da literatura de Liev Tolstói (também conhecido como Leon Tolstói ou Leão Tolstói) no gênero conto e novela. ‘‘As Obras Primas de Leon Tolstói’’, lançado pela editora Ediouro, reúne algumas dos mais conhecidas narrativas do escritor como ‘‘A Morte de Ivan Ilitch’’, ‘‘Sonata a Kreutzer’’, ‘‘A Felicidade Conjugal’’ e ‘‘Senhores e Servos’’. Lançado pela editora Cosac & Naify, ‘‘O Diabo e Outras Histórias’’ traz contos pouco conhecidos pelo leitor brasileiro, mas extraordinários. Entre eles ‘‘Três Mortes’’, ‘‘O Diabo’’, ‘‘Kholstomér’’ e ‘‘Depois do Baile’’.
Os dois volumes se completam. Deixam evidente as principais características da literatura de Tolstói. Direta em seus objetivos, as histórias apresentam o ser humano, bem como a sociedade em que está inserido, de maneira clara, sem espaços para a nebulosidade. A crítica social, a força da paixão, a decadência de princípios, a fatalidade da morte que a todos iguala, são os elementos sobre os quais o escritor expressa suas idéias.
Os contos que abrem os dois volumes trazem um tema recorrente na obra de Liev Tolstói: a morte. Em ‘‘A Morte de Ivan Ilitch’’ o autor narra a desesperada busca de ascensão de um burocrata no mesquinho mundo da aristocracia russa. Quando atinge seu objetivo, adoece e sente a morte cada dia mais próxima. Nesse drama, é empurrado a uma nova percepção do mundo e seus valores, uma reflexão que não elimina seu destino fatal.
Em ‘‘Três Mortes’’, Tolstói relata os últimos minutos de vida de três personagens distintos: uma nobre senhora religiosa, um pobre cocheiro e uma árvore. A maneira como cada um deles morre,e a respectiva relação que cada um estabelece com a morte revela, deixa evidente os princípios defendidos pelo escritor russo. Dos três personagens, apenas dois deles deixam alguma continuidade natural: o cocheiro que morre deixa suas botas para outro trabalhador, a árvore morre para que dela se faça uma cruz a ser colocada na sepultura do cocheiro.
Em ‘‘O Diabo’’ o romancista apresenta um homem lúcido sofrendo os tormentos do desejo sensual/sexual desprovido de lógica. Se não fosse pela abordagem de Tolstói e pelo final trágico, seria uma história adaptável aos interesses das telenovelas brasileiras. A edição da editora Cosac & Naify traz as duas versões realizadas pelo escritor. Numa delas, no final, ocorre um suicídio; na outra, um assassinato. Mas a conclusão, em ambos os caso, é a mesma: ‘‘De fato, se Ievguiêni era um doente mental, então todas as pessoas são igualmente doentes mentais, e mais ainda aquelas que enxergam nos outros os sintomas de loucura que não enxergam em si mesmas.’’
Em ‘‘Kholstomér’’, Tolstói conta curiosamente a história de um cavalo. Mais do que isso, a compreensão da humanidade a partir de uma ótica equina. Kholstomér é um cavalo de raça que, por ter nascido malhado, foi capado e jogado para os trabalhos pesados. Na velhice, passa a contar para sua vida aos cavalos mais jovens – os donos que teve, os lugares em que viveu e o que aprendeu com os seres humanos.
Observando a maneira como os homens usam as palavras, o cavalo chega a seguinte conclusão: ‘‘Dessas palavras, as que mais consideram são ‘meu’ e ‘minha’, que aplicam a várias coisas, seres e objetos, inclusive à terra, às pessoas e aos cavalos. Convencionaram entre si que, para cada coisa, apenas um deles diria ‘meu’. E aquele que diz ‘meu’ para maior número de coisas é considerado o mais feliz, segundo esse jogo. Para quê isso, não sei, mas é assim.’’
Afirmando que as pessoas não orientam suas vidas por atos, mas por palavras, o velho cavalo vai mais adiante: ‘‘Muitas das pessoas que me chamavam, por exemplo, de ‘meu cavalo’ nunca me montaram; as que faziam eram outras completamente diferentes. Também eram bem outras as que me alimentavam. As que cuidavam de mim, mais uma vez, não eram as mesmas que me chamavam de ‘meu cavalo’, mas os cocheiros, os tratadores, estranhos de modo geral. Mais tarde, depois que ampliei o círculo de minhas observações, convenci-me de que, não só em relação a nós, cavalos, o conceito de ‘meu’ não tem nenhum outro fundamento senão o do instinto vil e animalesco dos homens, que eles chamam de sentimento ou direito de propriedade.’’
Tanto os contos de ‘‘O Diabo e Outras Histórias’’ quanto os de ‘‘As Obras Primas de Leon Tolstói’’, demonstram que o escritor russo não fazia literatura apenas com palavras, mas com idéias. Idéias depositadas no canto das histórias, nas serifas das letras, nos sentimentos dos verbos.
•‘‘O Diabo e Outras Histórias’’ de Leiv Tolstói, editora Cosac & Naify (telefone 11/255-8808), seleção e apresentação de Paulo Bezerra, tradução de Beatriz Morabito, Beatriz Ricci e Maira Pinto, 286 páginas, capa dura, R$ 24,00.
•‘‘As Obras Primas de Leon Tolstói - Contos e Novelas’’, de Leon Tolstói, editora Ediouro (telefone 21/560-6122), tradução de Marques Rabelo, Boris Schnaiderman e Ruy Jungman, 338 páginas, R$ 21,00.

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