Havia um jogo de pernada chamado tiririca, praticado no Largo do Peixe, na zona leste, por um grupo de amigos. O líder deles era Alberto Alves da Silva, que, além da tiririca, dividia com os companheiros o prazer da batucada: eram eles, além de Nenê – o Alberto Alves da Silva – Antônio Alves de Almeida, o Tóquio, Júlio Francisco, Juvenal Tomás, Geraldo Albertino, Geraldina Alves da Silva, Benedito Albertino da Silva, Baldoíno de Paula Sodré.
Em 1949 eles resolveram fundar uma escola de samba. Batizaram-na com o nome do líder da turma: Grêmio Recreativo e Cultural Escola de Samba Nenê da Vila Matilde. Este ano, a escola comemora o cinquentenário com o enredo ‘‘Voa, Águia, Voa’’. Aos 78 anos, seo Nenê continua à frente da escola, primeiro e único presidente.
Como parte das comemorações, seo Nenê resolveu contar sua história, a história de sua escola – parte significativa, fundamental da história do Carnaval paulistano. A iniciativa foi do Centro Popular de Cultura da União
Metropolitana de Estudantes Secundaristas, o CPC-Umes, que incumbiu a jornalista Ana Braia de conversar com seo Nenê. E ela o fez. Gravou 20 horas de depoimentos, transcritos quase literalmente no livro ‘‘Memórias do seo Nenê da Vila Matilde’’, que foi lançado ontem, pela Lemos Editorial, em São Paulo.
Neto de escravos, operário metalúrgico por quase 30 anos, corintiano, seo Nenê contou histórias deliciosas, que foram mantidas no livro, até onde possível, na forma como foram contadas. ‘‘Na história do samba paulistano, uma personalidade admirável destaca-se das demais pelo pioneirismo, pela capacidade de liderança e, principalmente, pela simpatia’’, escreveu Paulinho da Viola, em carinhoso texto reproduzido na contracapa do livro. ‘‘O zelo aplicado todos esses anos na preservação e no crescimento da agremiação que fundou revela uma clara consciência do significado que tem, para todos nós, a grande manifestação popular que é o Carnaval e, muito especialmente, o desfile das escolas de samba’’, completa.
Seo Nenê examina os enredos apresentados por sua escola e de que maneira eles são escolhidos, analisa a complexidade da bateria, fala dos compositores, dos passistas, conta os problemas enfrentados em diversos desfiles, diverte-se com erros e acertos. A transmissão dos desfiles pela televisão é outro assunto caro – e ele afirma que a transmissão melhorou por pressões da Nenê da Vila Matilde e conta histórias da criação da liga das escolas.
Reclama da politicagem que ainda existe no Carnaval, mas tem esperança: está melhorando, há de ser melhor. Fala, no livro delicioso, como quem tem certeza de que estará lá para ver.

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