São Paulo, 08 (AE) - "Traição" é o Nélson Rodrigues anos 90. Nélson, sabe-se, é dos autores mais adaptados para a tela grande - é só lembrar de filmes anteriores, e antológicos, como "Boca de Ouro", de Nelson Pereira dos Santos, "A Falecida", de Leon Hirszman, ou "Toda Nudez Será Castigada", de Arnaldo Jabor. "Traição", dirigido por Arthur Fontes, Cláudio Torres e José Henrique Fonseca, compõe-se de três episódios, cada um assinado por um cineasta.
Em "O Primeiro Pecado", de Fontes, Pedro Cardoso faz aquele típico cafajeste rodriguiano, que sai à caça de uma mulher. No caso, uma deslumbrante Fernanda Torres. "Diabólica"
de Torres, traz a ninfeta (Ludmila Dayer, de Carlota Joaquina) que leva à loucura o cunhado, vivido por Daniel Dantas. No mesmo episódio, Francisco Cuoco interpreta um convincente delegado de polícia. Em "Cachorro!", dirigido por Fonseca, Alexandre Borges fica sabendo que sua mulher o passa para trás com o melhor amigo. Vai à forra. São três histórias de amor e traição, que Nélson Rodrigues escrevia para a coluna "A Vida Como Ela É", publicada em jornal.
Todo Nélson está aí: a tragédia dos casais, o desejo reprimido do subúrbio, as relações familiares para lá de doentias. E, mais um elemento, que mal se adivinhava naqueles tempos pré-feministas, mas foi intuído pelos diretores cariocas (que fazem parte da produtora Conspiração Filmes): "o crepúsculo do macho", expressão utilizada por Cláudio Torres para explicar o filme. De fato, o que se vê, nos três episódios, são machos tristes, presas fáceis das mulheres que pensam dominar. Em Nélson Rodrigues a guerra dos sexos tinha essa marca trágica, que muitos não queriam ver, preferindo interpretar sua obra como visão doentia da humanidade. Quer dizer: "coisa dos outros". Coube à turma da Conspiração mostrar como o dramaturgo é atual. Serviço - "Traição". Brasil, 1998. Dir de Arthur Fontes, Cláudio Torres, José Henrique Fonseca, com Fernanda Montenegro, Daniel Dantas.

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