Mergulhar nas águas dos acontecimentos do cotidiano, de roupa e caneta, e depois voltar à tona trazendo nas mãos histórias guardadas sob as águas. Nem sempre essa é uma tarefa fácil de realizar. A correnteza pode atrapalhar um pouco a visão.
Mas existem pessoas que se dedicaram a tal tarefa e, num ato de proeza, conseguem boas histórias. É o caso de um escritor chamado Carlos Drummond de Andrade. Embora seja mais conhecido como grande poeta brasileiro, ele também escreveu muitas histórias (chamadas geralmente de crônicas). Histórias que nos fazem pensar que os acontecimentos do dia-a-dia são muito mais interessantes do que imaginamos. Para isso basta olhar para eles com atenção, como um filme.
Drummond mergulhou na correnteza do cotidiano que carrega pessoas, coisas, plantas e animais, e voltou à tona trazendo belas crônicas. Algumas dessas histórias estão reunidas em ‘‘Rick e a Girafa’’, livro lançado pela Editora Ática com ilustrações de Maria Eugênia. Trata-se do terceiro volume da coleção ‘‘Para Gostar de Ler Júnior’’ – que publicou no ano passado os dois primeiros títulos, ‘‘Cara ou Coroa?’’ de Fernando Sabino e ‘‘Festa de Criança’’ de Luis Fernando Verissimo.
‘‘Rick e a Girafa’’ reúne 30 crônicas que podem fazer rir, chorar ou pensar. Emoções que a literatura pode oferecer com beleza. Situações que, quando estamos inseridos nelas, nos parecem confusas e complicadas. Mas quando olhamos de fora, tudo fica diferente. A compreensão fica tão clara que, independente da situação ser alegre ou triste, nos sentimos bem por estarmos olhando diretamente para a vida, como ela parece ser e como ela realmente é.
Para quem nunca ouviu falar de Carlos Drummond de Andrade, falecido em 1987, o livro traz uma pequena biografia do poeta. Dá para ficar sabendo, por exemplo, do que ele mais gostava. Coisas comuns como andar a pé, comer chocolate, decifrar jogo de sete erros, ver filmes na televisão e outras coisas. Não é difícil perceber porque ele escrevia histórias como se estivesse assobiando.
E por falar em histórias, vale mencionar uma delas, intitulada ‘‘As Pérolas’’. Bem curtinha, que até parece fábula:
‘‘Dentro do pacote de açúcar, Renata encontrou uma pérola. A pérola era evidentemente para Renata, que sempre desejou possuir um colar de pérolas, mas sua profissão de doceira não dava para isso.
– Agora vou esperar que cheguem as outras pérolas – disse Renata, confiante. E ativou a fabricação de doces, para esvaziar mais pacotes de açúcar.
Os clientes queixavam-se que os doces de Renata estavam demasiadamente doces, e muitos devolviam as encomendas. Por que não aparecia outra pérola? Renata deixou de ser doceira qualificada, e ultimamente só fazia arroz-doce. Envelheceu.
A menina que provou o arroz-doce, aquele dia, quase já ia quebrando um dente, ao mastigar um pedaço encaroçado. O caroço era uma pérola. A mãe não quis devolvê-la a Renata, e disse:
– Quem sabe se não aparecerão outras, e eu farei com elas um colar de pérolas? Vou encomendar arroz-doce toda semana.’’
Rick e a Girafa – De Carlos Drummond de Andrade, ilustrações de Maria Eugênia, Editora Ática, 112 páginas, R$ 8,90.

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