Com certeza você conhece a história de João e Maria. Aquela história de origem européia em que duas crianças são abandonadas pelos pais no meio de uma floresta. Andando a esmo, perdidas, as crianças acabam achando uma casa cuja moradora é uma velha bruxa. João e Maria são aprisionados pela bruxa que deseja devorá-los quando estiverem bem gordinhos.
O que você não sabe é que existe uma lenda tradicional dos índios mundurukus (um povo que habita as matas sudoeste do estado do Pará) muito parecida com a história de João e Maria. E muito mais interessante. Quando os irmão conseguem vencer a bruxa, por exemplo, os dois olhos da velha pulam de seu rosto e se transformam em dois cães. Os cachorros então tornam-se defensores das crianças para o resto de suas vidas.
Essa história pode ser encontrada no livro infantil ''As Serpentes Que Roubaram a Noite e Outros Mitos'', de autoria do antropólogo de origem indígena Daniel Munduruku. Lançado pela Editora Fundação Peirópolis, em parceria com o Instituto de Desenvolvimento das Tradições Indígenas (IDETI), a obra dá início à coleção que pretende resgatar lendas e mitos tradicionais de diversas nações indígenas do Brasil. As ilustrações deste primeiro título foram realizadas por crianças mundurukus da aldeia de Katõ.
As cinco histórias que integram ''As Serpentes Que Roubaram a Noite'' são narradas por um velho integrante de uma aldeia munduruku às margens do rio Tapajós e seus afluentes. Seguindo as tradições, o conhecimento é transmitido oralmente aos mais jovens através de histórias que trazem princípios de vida e conduta em suas palavras. Entre os mitos presentes no livro, aquele que conta como algumas das serpentes da floresta tornaram-se venenosas merece destaque. Constrói um belo imaginário da natureza.
Além das lendas, Daniel Munduruku também apresenta informações sobre seu povo, que era considerado uma das nações mais temidas durante a colonização do Brasil pelo exército de bons guerreiros. Apresentando a maneira como os mundurukus vivem hoje em dia, deixa de lado a imagem estereotipada que os habitantes das cidades fazem dos índios.
Um das colocações do autor diz respeito ao relacionamento entre as pessoas: ''Muito se engana quem pensa que os índios são 'santinhos'. Na verdade, os índios brigam muito entre si.'' Os motivos são variados, bem como a maneira que o conflito assume. As crianças não ficam de fora: ''Também os índios pequenos brigam pelos mesmo motivos que os adultos mas, na maioria das vezes, acabam fazendo as pazes e voltam a conviver em harmonia. Os pais quase nunca interferem nos conflitos dos filhos. Desde cedo os indiozinhos são educados a resolverem seus problemas. Isso os ajudará a solucionar os conflitos com que por ventura se depararem quando se tornarem adultos.''
Nesse sentido, fica evidente que qualquer povo, qualquer sociedade ou qualquer pessoa não está imune aos conflitos. Saber resolvê-los, da melhor maneira possível, também deve fazer parte do conhecimento de qualquer povo, qualquer sociedade ou qualquer pessoa.


''As Serpentes Que Roubaram a Noite e Outros Mitos'', de Daniel Munduruku, Editora Peirópolis (telefone: (11) 3816-0699), ilustrações realizadas por crianças da aldeia Munduruku, 56 páginas, R$ 25,00.

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