Historiador questionava os rumos da cultura no Estado
Em 1980, já há muito tempo preocupado com as coleções do acervo do Museu David Carneiro, o historiador escreveu em sua coluna Veterana Verba publicada em um jornal curitibano um artigo decepcionado com as inúmeras promessas que recebia do município e do Estado para que dessem um destino social ao acervo.
No artigo, que transcrevemos em seguida, ele destaca o desapontamento e a desilusão com os rumos da cultura paranaense. Hoje, depois de dez anos da sua morte, o acervo está embalado e fechado em dois depósitos. Até quando o material vai resistir, ninguém sabe.
O solar do Barão do Serro Azul
David Carneiro
Vi, hoje, sábado, 16 de agosto, que o ilustre prefeito de Curitiba, Dr. Jaime Lerner, está destinando o solar do Barão do Serro Azul a uma série de funções completamente diferentes das que, ao tempo de sua primeira gestão, havia pensado e mesmo, superficialmente, tratado comigo.
Entretanto, como não foi uma palavra oficial e muito menos definitiva a que se veiculou, posso acreditar que tenhamos a oportunidade de novas conversas sobre o assunto, salvo se estiver completamente revogado, o que (ao tempo de sua primeira gestão) tratamos.
É curioso como os assuntos culturais são marginalizados neste nosso Brasil subdesenvolvido. (...) e evidenciam, ainda, um atraso radical.
Não fosse o Museu David Carneiro, constantemente dilapidado e espoliado de suas relíquias (mesmo pelo poder público), não sei como as exposições demonstrativas da cultura paranaense teriam lugar com a presteza e a facilidade que os funcionários encarregados sempre sentem, ao correrem para minha casa a pedirem socorros e indicações.
No entanto, apesar de que o Museu Cel. David Carneiro é de utilidade pública federal, estadual e municipal, isto por decreto relativamente recente, não deixei nunca de pagar imposto algum mesmo da casa onde o museu se abriga!
Ainda que isso possa parecer estranho, é a pura realidade. Também de peças que emprestei houve uma que não me fora devolvida. Apesar do compromisso de honra pessoalmente firmado por funcionário público, em documento exibível a qualquer momento.
Isso basta para evidenciar o subdesenvolvimento. Em lugar de ser o governo que (conscientizado do valor cultural levado a efeito por particulares) deseje ir ao encontro destes e lhes proponha fórmulas pelas quais o público valor seja efetivado como posse pública, do particular é que se espera atitude de solicitação, como se não lhe fosse mais fácil jogar a mercado as preciosidades que possui, deixando com lucro material, de se ter tremendos encargos que, em lugar de pesarem sobre o público, pesam sobre os ombros de um só.
Seja, porém, como for. Continuo esperando que a minha cidade tome a si o que até hoje coube apenas a mim realizar no sentido da conservação de tradições e cultura que o Museu Paranaense, surgido mais de meio século antes do meu, descurou algum tanto, permitindo que um particular se encarregasse de fazer o que o estado deixava de realizar com a mesma efetividade e o mesmo ardor.
Mesmo a Universidade do Paraná (para a qual olhamos com justificado orgulho) não se conscientizou do que um museu representaria para a primeira e a principal das suas funções básicas (conservação da cultura) antes de sua expansão e as derivações a que tendeu depois de federalizada.
(....)
O que sei é que continuo lutando contra a maré, mesmo quando enfrento pessoas cujo alto nível sou obrigado a reconhecer. E é então que me pergunto: Será efeito das circunstâncias? Ou defeito pessoal da pessoa que escreve, incapacitada de ver realidades óbvias aos que a seu lado vivem?
Veterana Verba, 23 de agosto de 1980.





