São Paulo mudou a vida de Elvira Alegre que, assim como Clarice será sempre lembrada como a mulher de Herzog, a londrinense passou para a história do jornalismo como a bela jovem que ninguém sabia quem era e, por isso, pode ter passado incólume pelos diabos da ditadura, não sendo arrastada também aos seus porões. Nos 30 anos da morte do jornalista, Elvira voltou a fotografar alguns personagens e lugares da tragédia. A sua escola de jornalismo é a que mostra a realidade crua e sofrida.
Ela trabalhou com nomes como Samuel Weiner e foi produtora do Globo Repórter, integrando também a equipe de programas como Variety 60, da Bandeirantes, e Manduri 35, da Record - a primeira produção independente da televisão brasileira.
Com o dinheiro da edição do Ex sobre a morte de Herzog, os editores decidiram bancar uma extra com as melhores notícias do jornal. A ditadura esperou o periódico ficar pronto e retirou na gráfica, impondo uma censura econômica, que deixou a equipe a pão e banana.
Hoje, a censura não tem o mesmo poder, mas o descaso com a história está esquecendo os seus personagens e Elvira Alegre é um deles. ''Trabalhava com o Serjão (Sérgio de Souza), da Caros Amigos, que faleceu há pouco tempo, disse para ele que estava pensando em voltar para Londrina, que estava com saudade da família e dos meus amigos. Em um mês peguei a minha filha, a Joana, passarinho, e desembarquei na cidade. Cheguei a entrar em contato com o Serjão para fazermos um livro com as pessoas que ainda estão aí e que aparecem nas fotos, mas ele acabou morrendo. Ainda penso nessa idéia'', afirma Elvira.
Até a realização dos eventos que lembraram os 30 anos do desaparecimento de Herzog, poucos sabiam por onde andava a fotógrafa que registou imagens que, muitas vezes, foram publicadas sem crédito. ''Comigo acontece o mesmo que a Clarice. Sempre vão me associar ao caso Herzog. Sou uma referência, mas, em Londrina falta lembrar disso. Quando a UEL exibiu o documentário 'Vlado - 30 anos Depois', do João Batista Andrade, que tem algumas fotos minhas, promoveram uma mesa-redonda e não fui convidada a participar. Acredito que sou memória viva do que aconteceu. Isso é uma ignorância. Hoje se temos o direito de ir, circular, é porque alguém fez algo lá atrás. Alguém apanhou, morreu.'' (F.L.)

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