História e cultura no berço da civilização
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quarta-feira, 09 de novembro de 2005
Otávio Dias<br> Agência Estado 
Damasco - Quando se fala da Síria como destino de viagem, a maioria das pessoas tem uma reação negativa, pois associa o país e toda a região a terrorismo, guerra, perigo. É claro que o Oriente Médio é uma região instável e que exige cuidados, mas viajar pela Síria é agradável, tranquilo e barato. E o país, como um dos berços da civilização ocidental, exala história e cultura. Durante uma viagem de 15 dias por diversas cidades sírias, não houve sinal de animosidade por parte da população e nenhuma situação de tensão. Também não tivemos receio de sermos roubados ou enganados.
Pelo contrário: as pessoas foram respeitosas, simpáticas e curiosas em relação aos brasileiros. Andamos na rua a qualquer hora do dia ou da noite ficamos surpresos em ver como os sírios são notívagos e nos sentimos à vontade para dispensar a presença do guia em diversas oportunidades.
Dito isso, está mais do que na hora de descrever os inúmeros atrativos do país. Desde 8000 a.C., a Grande Síria região atualmente dividida entre Líbano, Síria, Jordânia e Israel foi palco do surgimento, desenvolvimento e queda de várias civilizações do Oriente Próximo, que influenciaram os povos europeus e foram influenciados por eles nos milênios seguintes.
Por conta da riqueza do país, de sua invejável cultura e posição estratégica entre Europa, Ásia e África, a Síria foi invadida e ocupada continuamente por egípcios, gregos, romanos, árabes, cruzados (cristãos europeus), turcos e, no século 20, novamente pelos europeus.
A região está localizada no coração do nascimento e crescimento das três grandes religiões monoteístas o judaísmo, o cristianismo e o islamismo , o que explica o forte caráter místico de uma viagem ao Oriente Médio.
Essa história longuíssima revela-se absolutamente viva e transparente nos incríveis monumentos e nas ruas estreitas da velha Damasco. Mas tem muito mais: a força cultural e intelectual de Aleppo, o estranho cenário do oásis de Palmyra, as ''norias'' de Hama, o castelo cruzado de Crac des Chevaliers, as ruínas romanas de Bosra. Ao todo, é necessário pouco mais de duas semanas para conhecer esses locais e cumprir um roteiro cheio de surpresas e descobertas.
Outros fatores tornam uma viagem à Síria ainda mais interessante. Devido ao isolamento do país, há poucos turistas (é possível conhecer algumas das ruínas romanas mais preservadas do mundo praticamente sem competidores) e os preços de hospedagem, comida e transporte são bastante baixos. Mais um ponto positivo, para animar qualquer viajante: a culinária síria, à qual os brasileiros estão bastante familiarizados, é de ótimo nível e bastante saudável.
Não se pode esquecer, ainda, que a Síria vive sob um regime ditatorial e que os avanços políticos, sociais e econômicos têm sido lentos. Mas a viagem justifica-se pela importância histórica e cultural do país. Conhecer de perto toda a complexidade de um país como a Síria, tão rico em história e cultura, nos faz relativizar os discursos excessivamente simplistas frequentemente usados no Ocidente para descrever as nações e os povos do Oriente Médio.
São séculos, ou melhor, milênios de glória e decadência, conquistas e derrotas, domínio e dominação que mostram que o drama da história humana não cabe em rótulos como bem e mal, certo e errado. Uma viagem ao umbigo da civilização nos faz entender que não há bandidos e mocinhos nessa nossa História.


