Ian Fleming criou o espião mais famoso da literatura, que o Estúdio United Artists (UA), ao produzir a adaptação mais fiel de um dos livros do escritor em ‘‘007 Contra o Satânico Dr. No’’, em 1962, tornou o personagem um dos mais charmosos da história do cinema, graças ao sex appeal de Sean Connery.
  A United Artists também se transformou na grande precursora do cinema independente ao tornar realidade uma idéia projetada na cabeça do lendário Charles Chaplin e da namoradinha da América, a atriz Mary Pickford; da estrela dos filmes mudos, Douglas Fairbanks e do primeiro cineasta, DW Griffith, que criou muitas das técnicas cinematográficas.
  O estúdio que produziu clássicos e inaugurou diretores como Woody Allen, Robert Altman, John Frankenheimer, Bernado Bertolucci, Frederico Fellini, Francis Ford Coppola, Brian De Palma e Martin Scorsese completará 90 anos, em 2009. As comemorações já começaram em todo o mundo. A UA criou um website especialmente para marcar a data www.unitedartists90.com.
  Para marcar o início das homenagens no Brasil, a Metro-Goldwyn-Mayer Inc. (MGM) e a Fox Home Entertainment promovem a exposição ‘‘United Artists 90 Anos de Magia no Cinema’’, na Reserva Cultural, em São Paulo – um espaço criado pelo empresário e distribuidor de filmes Jean-Thomas Bernardini para a exibição de filmes, discussão e difusão de idéias sobre cinema.
  Aberta até o dia 25 em São Paulo, a exposição traz 30 fotografias e pôsteres que contam a história do estúdio. São fotos inéditas de oito filmes e que somente agora foram liberadas, revelando os bastidores do cinema. Entre as imagens, cenas de Woody Allen em ação – imagens raras já que o diretor não se deixava fotografar no set.
  A mostra deve circular por outras capitais brasileiras. Curitiba pode ser incluída no roteiro ainda no primeiro semestre. O crítico Rubens Ewald Filho é o embaixador no Brasil dos 90 anos da UA. As comemorações ainda incluem a vende de DVDs dos grandes sucessos dos estúdios em embalagens comemorativas, mostras de filmes, palestras, debates e workshops de cinema.
  ‘‘O Rubens Ewald Filho está envolvido em toda a comemoração, sendo que foi o crítico que escolheu as fotos do acervo da exposição. Entre os critérios de seleção, além da representatividade das fotos e pôsteres para a história do cinema, é claro que também levou em consideração o gosto pessoal’’, afirma o gerente de marketing da Fox Home Entertainment, Alexandre Moreno.
  O gerente ressalta que a exposição está tendo grande número de visitantes, principalmente cinéfilos. ‘‘Os 90 anos da United Artists é um momento especial, já que o estúdio passou por uma grande reviravolta com a entrada do ator Tom Cruise, assumindo uma nova cara. É um estúdio querido principalmente por ser criado por artistas’’, comenta Moreno.
  Ele se refere à formação da parceria entre a MGM, Cruise e sua produtora, Paula Wagner, que produziu entre outros sucessos ‘‘Missão Impossível’’, ‘‘Os Outros’’ e ‘‘Guerra dos Mundos’’, e que deu um novo fôlego à UA. Em 2007, o estúdio produziu títulos com o objetivo de retomar a história de sucesso, como o drama político ‘‘Leões e Cordeiros’’, de Robert Redford, e ‘‘Operação Valquíria’’, de Bryan Singer, que será lançado este ano.
  Os primeiros anos das nove décadas da UA coincidem com um período de grandes transformações em Hollywood, que passou do cinema mudo ao som, mudando a carreira de estrelas como Pickford, Fairbanks e Chaplin, que decidiram criar o estúdio. A UA passou a atrair produtores independentes como Samuel Goldwyn, Alexander Korda, Haward Hughes e Buster Keaton, que dirigiu o clássico ‘‘A General’’, um dos maiores momentos da comédia do cinema mudo.
  Na fase entre as duas grandes guerras mundiais, o estúdio produziu e distribuiu filmes adaptados da literatura clássica entre os quais ‘‘O Morro dos Ventos Uivantes’’. Nos anos 40, a produção do estúdio reduziu, mas inclui clássicos como ‘‘O Ladrão de Bagdad’’, ‘‘O Grande Ditador’’, ‘‘O Ditador’’ e ‘‘Quando Fala o Coração’’, de Alfred Hitchcock.
  A partir do sucesso de ‘‘Uma Aventura na Àfrica’’, de John Huston, nos anos 50, o estúdio produziu os três primeiros filmes de Stanley Kubrick: ‘‘A Morte Passou Perto’’, ‘‘O Grande Golpe’’ e ‘‘Glória Feita de Sangue’’. A UA deu vida ao mais charmoso espião do cinema, o 007, personagem de Ian Fleming que, além da licença para matar na tela grande, ampliou o sucesso do estúdio, que criou uma franquia que duraria cinco décadas.
  Outras franquias surgiram no estúdio, entre elas ‘‘A Pantera Cor-de-Rosa’’, de Black Edwards, e a primeira incursão dos Beatles no cinema em ‘‘The Hard Day’s Night’’, que ajudou a banda britânica a conquistar a América.
  Na década de 70 mais clássicos foram produzidos pelo estúdio. ‘‘Um Estranho no Ninho’’, de Ken Kesey, se tornou o primeiro filme na história a ganhar cinco Oscars nas categorias de Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Roteiro, Melhor Diretor e Melhor Filme. A UA ao apoiar também o roteiro do aspirante a ator Sylvester Stallone, em Rocky, faturou um novo sucesso mundial e o Oscar de Melhor Filme.
  Os problemas do estúdio começaram com a decisão de apoiar um filme de orçamento alto de Michael Cimino, ‘‘Heaven’s Gate, levando a UA à beira da falência. Em 2000, a UA era apenas uma distribuidora, que colocou no mercado uma nova geração de cineastas independentes desde Winterbottom (A Festa Nunca Termina); Mike Leigh (Tudo ou Nada) até Michael Moore (Tiros em Columbine).
  Apesar de raramente produzir filmes, levou o Oscar de Melhor Ator, em 2006, pela atuação de Phillip Seymour Hoffman no longa ‘‘Capote’’. A longa trajetória de sucesso do estúdio criado por artistas, que no próprio nome traz essa filosofia, ainda deve contar muitas outras histórias na saga chamada cinema.

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