História de pescador completa 70 anos
Obra-prima de Ernest Hemingway, 'O Velho e o Mar' completa sete décadas, só no Brasil o livro já teve mais de 40 edições
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de julho de 2020
Obra-prima de Ernest Hemingway, 'O Velho e o Mar' completa sete décadas, só no Brasil o livro já teve mais de 40 edições
Marcos Losnak/ Especial para Folha 2 
O episódio que vou contar realmente aconteceu. Décadas atrás estava eu num sebo de Londrina olhando os livros nas estantes. Um senhor de cabelos brancos entrou no lugar e perguntou ao atendente: “Você tem um livro de pescaria chamado ‘O Homem do Mar’?”
Ao ouvir a pergunta comecei a imaginar que talvez o senhor estivesse se referindo a “O Velho e o Mar”, obra prima do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899 – 1961). Mas chamar a obra de “livro de pescaria” era algo surpreendente, algo que nunca havia pensado.
O atendente logo perguntou se ele sabia o nome do autor. Rapidamente o senhor tirou um papelzinho do bolso e entregou ao atendente dizendo: “Foi um amigo que me falou desse livro”.
Com o papelzinho nas mãos o atendente sumiu entre as estantes e voltou com um livro nas mãos. Dei dois passos para ver a capa do livro já nas mãos do comprador. Sim, numa surrada edição da editora Civilização Brasileira da década de 1950, tratava-se de “O Velho e o Mar”, um clássico da literatura universal de Ernest Hemingway. A partir desse dia, passei a considerar, ampliando o entendimento de leitura, o romance também como livro de pescaria.
A obra, escrita por Hemingway em 1950, está completando 70 anos de idade. Publicada em 1952, o romance teria impulsionado o escritor a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura em 1954. Os números indicam ser o livro mais vendido de Hemingway no Brasil com mais de 40 edições.
“O Velho e o Mar” (“The Old Man and of Sea”) narra a história de Santiago, um humilde pescador cubano em desgraça. Um velho pescador solitário que, apesar da experiência acumulada, vive uma maré de má sorte. Todos os dias, ao longo de três meses, coloca seu pequeno barco no mar e não consegue fisgar um único peixe. Mas com determinação não desiste, todos os dias sai para pescar.

Um belo dia sua sorte muda e fisga um peixe grande. Um peixe maior que seu próprio barco. Um peixe igualmente determinado em lutar com todas as forças para não sair do mar, para não ser pescado. E assim tem início uma batalha entre homem e peixe que se prolonga por três dias. Uma batalha que atinge limites extremos.
Muitos leitores consideram “O Velho e o Mar” uma história de superação. Uma história sobre a determinação de um homem em vencer obstáculos e adversidades. Mas a obra também pode ser considerada uma história sobre a derrota, uma fábula sobre o fracasso.
O personagem Santiago é um homem obstinado em vencer o peixe que mordeu seu anzol. Apesar do tamanho e da força do peixe, afirma para si mesmo que precisa lutar até morrer. Em seus pensamentos, sozinho no mar, considera que “o homem não foi feito para a derrota”. E vai além: “Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”.
Em sua determinação enfrenta fome, sede, cãibras, cortes nas mãos, dores nas costas, sofrimento, solidão, desespero, dúvidas e muito mais. Mas segue. E mesmo com uma grandiosa crença em si mesmo e fé na vitória, conquista apenas a derrota. E Santiago cai. Prostrado no chão, começa perceber que a derrota não é tão pesada como ele imaginava. E, ao sentir alívio no fracassar, constata: “Nunca tinha sido derrotado e não sabia como era fácil”. Em outras palavras, a derrota e o fracasso possuem uma leveza que o sucesso e a conquista não conseguem entender.
Se encarado como livro de pescaria, “O Velho e o Mar” é a história de um pescador que, sozinho, apanhou o peixe dos sonhos, o maior dos peixes, o melhor lutador de todos, mas não consegue carregá-lo para casa. Não consegue mostrá-lo ao mundo como fruto de sua conquista. Não consegue apresentá-lo aos pescadores como façanha monumental. Não pode revelá-lo às pessoas como troféu de uma batalha vencida. Não consegue nem ao menos vendê-lo para pagar as contas. Tudo o que resta é o processo da existência na experiência da pesca, não o peixe.
Santiago, como pescador, é aquele que vence a batalha, mas perde a guerra. Como ser humano, é aquele que entende que tudo que possui e merece valor está em terra próxima, não em distante mar. A pesca se revela como instrumento de entendimento da vida e das relações humanas.
Ernest Hemingway nasceu em 1899. Um dos grandes escritores norte-americanos do século 20, é autor de “Por Quem os Sinos Dobram”, “Adeus às Armas” e “Paris é uma Festa” entre outros livros. Cometeu suicídio em 1961. A edição brasileira de “O Velho e o Mar” mais recente foi publicada pela editora Bertrand Brasil em 2013.

Serviço:
“O Velho e o Mar”
Autor – Ernest Hemingway
Editora – Civilização Brasileira
Tradução – Fernando de Castro Ferro
Páginas – 126
Quanto – R$ 49,90


