História de amor em Auschwitz
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de abril de 1999
Silvana Leão 
Um romance no local mais improvável do mundo: um campo de concentração nazista. Esta é uma história verídica que virou novela e foi divulgada em oito capítulos pela Internet, escrita por um brasileiro de Recife, radicado há 13 anos na Alemanha.
Antonio A. de Bulhões, ou Athon Aduren, como ele costuma assinar as matérias independentes ou feitas a custo próprio, topou com o caso de Jerzy Bielecki e Cyla Cybulska durante suas pesquisas, motivadas pelo interesse em conhecer não apenas os campos de concentração e outros monumentos em memória da 2ª Guerra, mas também em pesquisar, investigar e conversar com pessoas que haviam vivido e sobrevivido a esse tempo. Aduren acabou descobrindo uma história de amor dentro do inferno chamado Auschwitz.
ReproduçãoCyla Cybulska e Jerzy Bielecki na juventude, quando se apaixonaram, em meio ao horror de AuschwitzO caso de Cyla e Jerzy me assaltou e me fascinou, confessa o engenheiro que, desde a época de faculdade, atua na área jornalística. O amor, a paixão arrebentada dentro de parâmetros que nada possuem de romantismo ou em circunstâncias determinadas pela morte iminente ou eminentemente pela morte, pela degeneração total dos sentimentos, pela miséria individual e coletiva, pela incerteza do futuro imediato, no caso pela incerteza até mesmo das próximas horas, era para mim improvável.
A novela virtual foi divulgada até o último sábado - dois dias depois do Dia em Lembrança do Holocausto e do Heroísmo, promovido em Israel na segunda-feira - em capítulos semanais. A escolha da Internet para divulgar uma história incrível, ocorrida entre os anos de 1943 e 1944 na maior engrenagem de dizimação humana que os nazistas criaram, foi feita por se tratar do meio mais rápido e efetivo que se tem em mãos hoje. Levando em conta que moro na Alemanha, foi a forma mais fácil de chegar aos brasileiros, incluídos os que também, como eu, não moram no Brasil. Em livro o processo é mais demorado, afirmou Athon Aduren em entrevista à Folha.
De qualquer forma, ele não descarta a possibilidade de transformar a história em livro, que seria mais detalhado e teria lançamento programado para o dia 14 de junho de 2000, quando estará fazendo 60 anos que o campo de Auschwitz entrou em funcionamento. Nesta mesma data, no ano de 1940, Jerzy Bielecki chegou ao local, onde, como bem definiu Aduren, a humanidade conseguiu fazer a realidade bater de longe a mais macabra fantasia.
ReproduçãoAntonio A. de Bulhões assina a novela com o pseudônimo Athon AdurenNa rede, a espetacular história de amor e fuga do jovem casal pode ser lida no site da Abknet, um serviço de apoio para a imprensa brasileira na Europa de língua alemã, que também divulga trabalhos independentes (o endereço é www.abknet.de). O ineditismo do caso deve-se, segundo o autor, às dificuldades até hoje existentes em divulgar informações daquela época marcada pelo horror. Ele lembra que muitas histórias ainda não foram contadas. Outras, acredita, jamais serão.
O maior problema foi, durante muitos anos, o inexplicável silêncio dos sobreviventes. Para se ter uma idéia os primeiros relatos oficiais sobre os crimes cometidos pelos nazistas tomaram impulso somente no fim dos anos 50, início dos anos 60. Portanto, duas dezenas de anos depois que Auschwitz entrou em funcionamento. Ele explica que o acesso às informações só ficou menos complicado após a abertura das fronteiras do leste. Todos estes obstáculos e dificuldades teriam feito o caso ficar desconhecido para a maioria até agora.
A obra, denominada Apaixonados em Auschwitz - Uma História de Amor no Inferno, não se restringe a contar como nasceu e qual foi o destino do amor entre Cyla, uma jovem filha de abastada família de judeus na Polônia, e Jerzy, um rapaz ingênuo que foi surpreendido por um agente da Gestapo quando tentava, junto com amigos, cruzar a fronteira com a França para integrar a resistência polonesa. O leitor é surpreendido com detalhes de uma realidade difícil de ser digerida. No capítulo Montes humanos Aduren relata uma das cenas mais aterrorizantes presenciadas por Jerzy Bielecki no tempo em que viveu, ou melhor sobreviveu, em Auschwitz:
Naquele dia Jerzy cuidara de toda a grama ao longo da cerca elétrica que circundava o Campo. Ao se aproximar do trecho que ficava nas imediações do crematório deparou-se à distância com uma imagem que no primeiro momento, de tão grotesca, mais se aproximava do surrealista e inacreditável. Ao longo de pelo menos trinta ou quarenta metros e altura de até dois metros, se estendia uma montanha de cadáveres humanos completamente nus.
Em depoimento ao jornalista, Jerzy afirmou: Ninguém, sendo normal, é capaz de descrever o que significa presenciar coisa igual. Por mais que existam palavras e por melhor que alguém consiga usá-las para se expressar, jamais, jamais será possível transmitir o significado de um instante daquele. Aduren concluiu que a loucura que acometia os alemães, o ódio ensandecido, atingira um nível inimaginável e sem precedentes.
Para o brasileiro que acabou conhecendo de perto o mecanismo da imensa máquina responsável pela Solução Final, Auschwitz é um silencioso monumento à dor, ao lado mais animal que há no homem. Um monumento à desumanidade. Ele afirma que, ainda hoje, qualquer pessoa que visite o local, sente um pouco de sua dignidade enquanto ser humano ser roubada, sem necessidade de, para isso, ser dada sequer uma palavra, um gesto, nada.
Athon Aduren escreveu Uma História de Amor no Inferno baseado em relatos, entrevistas, pesquisas e estudos, fielmente reproduzidos, descritos e a partir de testemunhos tanto das vítimas como também dos criminosos. Para o jornalista, a história é antes de tudo uma lição de resistência a maior loucura humana deste século. Vale a pena acessar o site da Abknet e se emocionar com o caso de Cyla e Jerzy, ambos com 77 anos e vivendo das lembranças de um milagre, que foi escapar com vida de Auschwitz.


