História de amor é montada com músicas de Chico Buarque
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segunda-feira, 20 de março de 2000
Por Ubiratan Brasil 
São Paulo, 21 (AE) - Até Chico Buarque ficou surpreso. Entre as 22 músicas de sua autoria que compõem o musical "Na Bagunça do Teu Coração", que estréia amanhã (22) no Teatro Bibi Ferreira, havia duas que nem ele lembrava de ter composto, "Canção de Pedroca" e "Canto Fundo de Frederico. "Ele ficou emocionado com o trabalho de redescoberta", comenta a atriz e cantora Cláudia Netto, que divide o palco com Cláudio Botelho e quatro músicos, sob a direção-geral de Bibi Ferreira.
Durante uma hora e meia de espetáculo, sem intervalo, a dupla interpreta diversos papéis, sempre em torno das canções de Chico Buarque - a história percorre o ano de 1999, desde o primeiro encontro de um casal em uma praia, passando pelas mudanças de sentimentos e oscilações da aventura do amor até a inevitável reconciliação. "Na verdade, é uma história tão sem surpresas como um filme de Fred Astaire e Ginger Rogers, mas com um romantismo delicioso, além da beleza das próprias músicas", afirma Botelho.
O êxito do musical está principalmente no engenhoso roteiro dos jornalistas João Máximo e Luiz Fernando Vianna, autores do texto que amarra bem as 22 canções de Chico selecionadas para o espetáculo. "Como profundos conhecedores da música brasileira, João e Luiz souberam fugir do óbvio ao vasculhar a obra do compositor e escolheram verdadeiras jóias", diz o diretor Paulo Afonso de Lima, citando como exemplo a música que abre o espetáculo, "Valsa Brasileira".
Achado - Em alguns casos, a garimpagem exigiu esforço extra, como a recuperação de canções do musical "O Rei de Ramos". "Em determinadas músicas, tínhamos a letra mas quase nenhuma referência da melodia", conta Cláudia. "Assim, chegamos a pedir auxílio aos parceiros de Chico, como Francis Hime, que reproduziu no piano a música "Canção de Pedroca", gravou em uma fita cassete e nos enviou."
Entre as canções, figuram também verdadeiros sucessos do compositor, como "Olhos nos Olhos, O Que Será, Fantasia, Sob Medida, Não Sonho Mais". São composições que, sozinhas, já contam uma história. Apesar de conhecidas, as letras não são acompanhadas pelas platéias, como se tornou hábito nos musicais envolvendo clássicos da música brasileira. "É que cada canção exerce uma função no enredo, o que atrai a concentração do público", acredita Botelho.
Os autores do espetáculo constataram que as músicas de Chico Buarque, mesmo as que não foram criadas para um contexto dramático, contam histórias, definem personagens, refletem emoções. As suas letras não somente preenchem uma música, mas têm um ritmo vocabular. Como as duas canções que fugiram da memória do compositor - em "Canção de Pedroca, Chico revela-se espirituoso, assim como em "O Canto Fundo de Frederico", em que Botelho interpreta o tema caracterizado como um afetado homossexual.
"Na Bagunça do teu Coração" estreou no Rio no ano passado, conseguindo boas lotações no Teatro João Caetano. Foi ainda duplamente indicado ao Prêmio Sharp, como melhor musical e melhor enredo. A temporada exigiu esforço dobrado de Cláudia. Como também participava do musical "Somos Irmãs", sobre a vida das irmãs Batista, a atriz e cantora tinha 20 minutos para deixar um espetáculo e chegar ao outro. "Era obrigada a me pentear no carro", conta.
Sotaque carioca - A montagem paulistana apresenta melhorias em relação à carioca. O cenário perdeu alguns adereços desnecessários, enquanto o figurino ganhou rebuscamentos. Também a iluminação sofreu mudanças, agora sob a responsabilidade de Jorge Takla. "Só não modificamos (o que seria impossível) o tom bem carioca do espetáculo", comenta Cláudia, que temia uma fria recepção do público de São Paulo por causa do sotaque do Rio.
Os ensaios abertos, porém, foram tranquilizadores: a recepção foi positiva, com o espetáculo interrompido em diversos momentos pelos aplausos. Aos interessados, será vendido um CD com todas as músicas do espetátuculo. "Gravamos em estúdio, para ter qualidade", afirma Botelho. Serviço - Na Bagunça do Teu Coração. Musical. De João Máximo e Luiz Fernando Vianna. Direção de Bibi Ferreira (geral) e Paulo Afonso de Lima. Duração: 1h30. Quinta, às 21 horas; sexta, às 21h30; sábado, às 20 e 22 horas; domingo, às 19 horas. R$ 15,00 (quinta); R$ 20,00 (sexta e domingo); R$ 25,00 (sábado). Teatro Bibi Ferreira. Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 931, tel. 3105-3129. Até 30/5.


